Gigante de origem cananeia, Cristóvão buscou servir ao maior príncipe do mundo. Após servir a um rei e depois ao diabo, consagrou-se a Cristo ajudando viajantes a atravessar um rio perigoso, carregando um dia o próprio Menino Jesus. Terminou mártir na Lícia após converter milhares de pagãos.
Seus contemporâneos
Figuras e referências situadas em torno do período normalizado desta ficha.
Leitura guiada
8 seçãos de leitura
SÃO CRISTÓVÃO OU CHRISTOPHORUS,
MÁRTIR NA LÍCIA
Fontes e historicidade
Apresentação das fontes hagiográficas, notadamente o cardeal Barônio e o Breviário dos Moçárabes, ressaltando a incerteza de certos relatos.
Século III.
Te nocimus, Christophore, christiferum; simul junxit ensis martyrem Christo Deo.
Nós sabíamos, ó Cristóvão, que tu carregavas Cristo em teu coração; e a espada que ceifou teus dias não faz senão unir-te mais estreitamente ao teu Deus.
Acta Sanctorum.
É algo indubitável que houve na Igreja um santo Cristóvão , que, segundo o significado de seu nome, carregou Jesus Cristo em seu coração pelo puro amor que teve por Ele: em sua boca pela pregação de seu Evangelho, e em seus membros pela participação de seus sofrimentos. As igrejas e capelas dedicadas sob seu nome, as festas estabelecidas em sua honra, as memórias que fazem dele todos os Breviários e Martirológios, e suas imagens expostas publicamente em um grande número de catedrais, são uma prova convincente disso; mas, quanto às circunstâncias de sua história, elas não são de todo certas: seja porque a antiguidade não teve o cuidado de escrevê-las exatamente, seja porque a malícia dos hereges, para obscurecer a verdade, inseriu nelas coisas extraordinárias demais e que estão totalmente fora de crédito. É, portanto, apropriado, nesta vida, fazer um sábio discernimento da verdade com a mentira, e dizer de tal modo o que pode prejudicar a glória deste glorioso Mártir, que não se diga nada que não seja bem estabelecido e apoiado por testemunhos suficientes. O cardeal Barônio, que examinou seus Atos, não encontra outros mais s eguros do que aquele s que estão compreendidos em um hino muito antigo do Breviário dos Moçárabes, elaborado por santo Isidoro, ao qual é preciso acrescentar o que aprendemos dele na prefácio de santo Ambrósio, para a Missa de santo Cristóvão, relatada por Surius.
Origens e apostolado na Lícia
Originário de Canaã e antigo soldado, Cristóvão converte-se e evangeliza a Lícia, realizando numerosas conversões e o milagre do bastão florido.
Segundo estas Memórias, Cristóvão era cananeu de origem, pagão de religião; seguiu a carreira das armas e fez parte da expedição contra os persas, sob as ordens do jovem imperador Gordiano. Converteu-se ao cristianismo sob o imperador Filipe. Inflamado pelo amor de Jesus Cristo, deixou o seu país para anunciar, em diversos lugares, e principalmente na província da Lícia, a dout rina da nossa san ta religião. Os seus trabalhos foram tão bem-sucedidos, acompanhados de tantas graças do céu e de tantas obras milagrosas, que converteu nada menos que quarenta e oito mil pessoas. Era de alta estatura e de porte majestoso. Tinha o rosto belo e agradável, cabelos brilhantes e tanta graça em tudo o que fazia e dizia, que ganhava facilmente a afeição de todos os que o viam. Caminhava ordinariamente apoiado num bastão; e, um dia, tendo fincado na terra aquele que carregava, fê-lo milagrosamente reverdecer e dar flores e folhas: o que foi causa da conversão de muitos infiéis.
Perseguição e primeiras provações
Sob o imperador Décio, Cristóvão é preso; ele converte seus guardas, bem como duas mulheres, Niceta e Aquilina, enviadas para seduzi-lo.
A perseguição do i mperador Décio estava então acesa no mundo, e os cristãos eram capturados por todos os lados para serem mortos; mas principalmente aqueles que, não se contentando em ser fiéis, trabalhavam para aumentar a religião por meio de novas conquistas. Como São Cristóvão era um deles, o imperador, ou algum presidente em seu nome, enviou soldados para capturá-lo. Ele teve a bondade, diante da fome que sofriam, de multiplicar sobrenaturalmente um pouco de alimento que tinham, para sustentá-los. Este prodígio tendo aberto os olhos de suas almas para conhecer o erro em que viviam e a verdade de um só Deus, criador do céu e da terra, renunciaram ao culto dos ídolos e entraram na Igreja de Jesus Cristo. Isso não impediu a captura de Cristóvão, que, longe de fugir do martírio, desejava-o com ardor e buscava-o com empenho. O tirano, tendo-o colocado na prisão, enviou para lá duas mulheres devassas para corromper sua fé ao corromper sua pureza: chamavam-se Niceta e Aquilina; mas ele falou-lhes com tanto zelo e vigor que, em vez de ser per vert ido por seus artifícios, converteu-as e tornou-as castas e fiéis: pouco tempo depois, elas suportaram generosamente o martírio com os soldados que ele havia iluminado com a luz da fé, e várias outras pessoas nobres e ricas, que o reconheciam como seu pai espiritual.
Suplícios e morte do mártir
Após ter sobrevivido a diversos suplícios e curado o olho de um carrasco com seu sangue, Cristóvão é decapitado, pedindo a proteção divina para seus futuros devotos.
O perseguidor, vendo a coragem invencível de São Cristóvão, fê-lo atormentar por vários suplícios cruéis. Cobriram-lhe a cabeça com um elmo em brasa e estenderam-no sobre um banco de ferro do comprimento e da largura de seu corpo, sob o qual puseram brasas ardentes, enquanto vertiam óleo fervente sobre seus membros. Estes tormentos não lhe causaram mal algum; ao ver isso, muitos pagãos exclamaram que não havia outro Deus senão aquele que Cristóvão adorava, nem outra religião senão a que ele professava. Em seguida, amarraram-no a um poste e dispararam contra ele, durante todo um dia, um grande número de flechas; mas nenhuma perfurou seu corpo, de modo que ele parecia invulnerável. Pelo contrário, uma delas atingiu o olho de um dos carrascos e o vazou: o que proporcionou ao Santo uma bela ocasião para manifestar sua caridade heroica; pois, esquecendo os maus tratos daquele miserável, devolveu-lhe o olho com gotas de seu sangue que o aconselhou a aplicar. Este sangue, escapado de alguma ferida da qual sua história não menciona, foi tão eficaz que restituiu àquele mesmo carrasco a luz da alma com a do corpo, e fez dele um cristão disposto a suportar o martírio. Finalmente, o juiz condenou nosso Santo a ter a cabeça cortada. Antes de receber o golpe mortal, o mártir rezou a Nosso Senhor com muita insistência para que se tornasse propício aos pecadores e aos enfermos que implorassem sua misericórdia por sua intercessão, e para que preservasse também de granizo, incêndio, peste e fome o lugar onde seu corpo seria enterrado. O hino dos moçárabes acrescenta que dez mil cristãos, que ele havia animado ao martírio pelo seu exemplo, foram executados com ele: o que lhe deu a glória de enriquecer a Igreja triunfante, após ter aumentado a Igreja militante.
Culto, iconografia e simbolismo
Análise da representação tradicional do santo carregando o Menino Jesus e de seu patrocínio contra os flagelos naturais.
A memória de São Cristóvão é celebrada em todas as igrejas latinas no dia 25 de julho, com exceção da de Valência, na Espanha, que a soleniza agora no dia 40 do mesmo mês, porque nesse dia uma sinagoga de judeus, que São Vicente Fer rer havia convertido, e que asseguraram que São Cristóvão os havia frequentemente advertido, em sonho, a abandonar a superstição do judaísmo e a pedir o Batismo, foi dedicada e consagrada, com as cerimônias eclesiásticas, em honra deste invencível Mártir.
Quanto ao seu retrato, que se representa de uma grandeza tão prodigiosa, carregando o Menino Jesus sobre os ombros e atravessando um rio com uma árvore verdejante nas mãos, Barônio testemunha que não sabe certamente a causa; mas indica suficientemente, pelos versículos que relata do hino dos moçárabes, que reconhece nele algo de histórico e algo de singular e simbólico. A história é que São Cristóvão era grande e, andando habitualmente com um cajado, fê-lo reverdecer e florescer para a conversão dos idólatras; mas o símbolo é que ele tinha uma alma grande, generosa e invencível, que os trabalhos não o assombravam, e que caminhou a passos de gigante, não apenas no exercício da virtude, mas também no da pregação do Evangelho; que carregou Jesus Cristo nos países infiéis cujo acesso era muito difícil por causa das tempestades e tormentas que os imperadores e magistrados excitavam por todos os lados; que atravessou rios de aflições e sofrimentos, sem poder ser submergido, por causa da força de seu espírito e da altura de sua coragem, que o colocavam acima de todas as perseguições dos homens; enfim, que sua constância e firmeza, representadas por seu cajado, sempre foram florescentes e nunca perderam seu vigor. Representa-se também em lugares elevados, para significar o poder que tem sobre os meteoros do ar, tais como o trovão, o granizo, os ventos impetuosos e as tempestades contra os quais se invoca seu nome. Seria difícil marcar a origem dessas representações misteriosas. Barônio fala disso no dia 23 de abril, a propósito de São Jorge. Há aparência de que a de São Cristóvão veio do Oriente, e que se começou a representá-lo da maneira que descrevemos, assim que Constantino deu poder para construir igrejas em honra dos Mártires.
Relíquias e presença geográfica
Inventário das relíquias conservadas na Espanha e na França, e menção às igrejas dedicadas ao santo.
Uma grande parte das relíquias de São Cristóvão encontra-se na Espanha; a igreja de To ledo possui alguns ossos, que Tamayo diz terem sido trazidos para lá já no ano de 258, ou seja, quatro anos após o seu falecimento. A de Valência possui mais: mas obteve-os de Toledo, quando esta cidade foi arruinada no ano de 828. Mostra-se um braço em Compostela e uma mandíbula em Astorga. Todos estes membros são de uma grandeza extraordinária. Temos em Paris uma paróquia com o seu nome, que é muito antiga e uma das primeiras da cidade. Os beneditinos, que possuíram estabelecimentos muito consideráveis na antiga diocese de Toul, parecem ter trazido para lá várias relíquias de São Cristóvão, das quais algumas ainda subsistem. A igreja de Sénone, diocese de Saint-Dié, possui um fragmento considerável de um osso de um braço de São Cristóvão, proveniente da antiga abadia; a de Moyen-Moutier, no mesmo vale, possui a extremidade articular de um osso grande, provavelmente o úmero; a igreja de Lay-Saint-Christophe, diocese de Nancy, possui um fragmento de osso.
A lenda do barqueiro de Cristo
Relato da busca de Cristóvão para servir ao maior mestre, culminando em seu encontro com o Menino Jesus à beira de um rio.
*Etimologia de seu nome.* — Cristóvão, antes de seu batismo, chamava- se Repro vado (*Reprobus*); mas, posteriormente, foi chamado de Cristóvão (*Christophorus*), isto é, *Portador de Cristo*, porque ele carregou Cristo de quatro maneiras: sobre seus ombros, ao atravessá-lo; em seu corpo, pela maceração; em sua alma, pela devoção; em sua boca, pela pregação.
*Sua vida.* — Cristóvão, cananeu de nação, era de estatura gigantesca e de aspecto terrível, e tinha doze côvados de altura. Encontrando-se, como se lê em uma história, junto a um rei cananeu, veio-lhe ao espírito procurar o maior príncipe que houvesse no mundo e ir morar perto dele. Dirigiu-se, pois, a um rei muito poderoso que a fama apontava em toda parte como o maior príncipe do mundo. Assim que o viu, o rei recebeu-o voluntariamente e fê-lo ficar em seu palácio. Ora, certa vez, um jogral cantava uma canção na qual nomeava frequentemente o diabo. Ora, como o rei tinha a fé de Jesus Cristo, cada vez que ouvia nomear o diabo, imprimia imediatamente em sua fronte o sinal da cruz. Vendo isso, Cristóvão espantou-se muito com o motivo pelo qual o rei fazia aquilo, e o que aquele sinal queria dizer. Como ele interrogasse o rei a esse respeito, e este último não quisesse revelar-lhe, Cristóvão disse-lhe: "Se não me disseres, não ficarei daqui em diante convosco". Por isso o rei, forçado, disse-lhe: "Cada vez que ouço nomear o diabo, muni-me deste sinal, temendo que ele tome sobre mim algum poder e me prejudique". Ao que Cristóvão: "Temes que o diabo te prejudique! É claro que ele é maior e mais poderoso que tu, já que confessas que o temes tanto, e estou frustrado em minha esperança, eu que pensava ter encontrado o maior e mais poderoso senhor do mundo. Adeus, pois! Pois quero ir procurar o diabo, a fim de tomá-lo por meu senhor e tornar-me seu servo".
Ele separou-se do rei e apressou-se em procurar o diabo. Ora, enquanto caminhava através de uma solidão, viu uma grande multidão de soldados, dos quais um soldado feroz e terrível veio a ele e perguntou-lhe para onde ia. Cristóvão respondeu: "Vou procurar o senhor diabo, a fim de que eu o tome por senhor". Ao que o outro: "Sou aquele que procuras".
Cristóvão, alegre, ligou-se a ele para sempre como servo e tomou-o por seu senhor. Enquanto caminhavam ambos, encontraram uma cruz erguida em uma estrada. Assim que o diabo avistou essa cruz, fugiu aterrorizado e, deixando a estrada, levou Cristóvão através de uma áspera solidão e trouxe-o depois de volta à estrada. Vendo isso, Cristóvão, espantado, perguntou-lhe por que ele tinha, tão trêmulo, abandonado a grande estrada e, fazendo um desvio tão grande, tinha passado por uma áspera solidão. Como o diabo não queria explicar-lhe, Cristóvão disse: "Se não me explicares, afasto-me de ti no instante". Por isso o diabo, levado ao limite, disse-lhe: "Um homem, Jesus Cristo, foi pregado nesta cruz; quando vejo o sinal desta cruz, tenho grande medo e fico todo trêmulo". Ao que Cristóvão: "É, portanto, maior que tu, esse Cristo cujo sinal tanto temes: trabalhei, pois, em vão, e ainda não encontrei o maior príncipe do mundo. Adeus, pois! Pois quero deixar-te e procurar Cristo".
Ora, quando ele procurou alguém que lhe fizesse conhecer Cristo, veio finalmente a um eremita, que lhe pregou Cristo e o instruiu diligentemente na fé; mas o eremita disse a Cristóvão: "Este rei, que desejas servir, pede de ti este serviço: que terás de jejuar frequentemente". — "Que peça outro serviço, porque não posso de modo algum fazer isso". — "Terás de fazer-lhe muitas orações". — "Não sei o que é isso; não posso, portanto, ainda cumprir este ofício". — "Não conheces este rio, onde a maioria daqueles que o atravessam correm grandes perigos e perecem?" — "Eu o conheço". — "Como és de grande estatura, robusto, se te fixasses perto deste rio, e se atravessasses a todos, isso seria muito agradável ao rei Cristo, que desejas servir, e espero que ele se manifestaria a ti mesmo". — "Sim, posso cumprir este ofício, e abandono-me a ele para este serviço".
Ele veio, pois, ao referido rio, fabricou uma morada para si mesmo; e, carregando em sua mão uma vara a título de cajado, com a qual se sustentava na água, atravessava a todos sem descanso.
Passados muitos dias, enquanto descansava em sua morada, ouviu a voz de uma criança que o chamava e dizia: "Cristóvão, vem para fora e atravessa-me". Desperto, saiu para fora, mas não encontrou ninguém e, voltando para a cabana da qual falamos, ouviu novamente uma voz que o chamava; correu ainda para fora, mas não encontrou ninguém. Uma terceira vez, chamado como antes pela mesma pessoa, saiu e encontrou uma criança na margem do rio, que pediu instantaneamente a Cristóvão que a atravessasse. Este, tomando então a criança sobre seus ombros e munindo-se de seu cajado, entrou no rio para atravessá-lo, e eis que a água do rio inchava pouco a pouco e a criança pesava como o chumbo mais pesado. Quanto mais avançava, mais a água se elevava, mais a criança esmagava os ombros de Cristóvão com um peso intolerável, a ponto de ele se encontrar em um sério embaraço e temer correr os maiores perigos. Mas quando saiu e tocou a margem, depositou a criança e disse-lhe: "Tu me colocaste, meu filho, em um grande perigo, e pesaste tanto que, se eu tivesse o mundo inteiro sobre meus ombros, mal teria sentido um fardo mais pesado". A criança respondeu-lhe: "Não te espantes, Cristóvão, pois tiveste sobre ti não somente o mundo inteiro, mas ainda Aquele que criou o mundo; pois eu sou Cristo, teu rei, a quem serves neste ofício; e, para que tenhas uma prova de que digo a verdade, quando tiveres atravessado, planta teu cajado na terra, perto de tua casa, verás amanhã que ele terá florescido". E imediatamente ele desapareceu aos seus olhos.
O martírio segundo a Legenda Áurea
Relato detalhado do processo em Samos perante o rei Dagus, dos milagres de conversão e da execução final do santo.
Vindo, pois, Cristóvão fincou seu cajado na terra e, pela manhã, ao levantar-se, encontrou-o como uma palmeira, coberto de folhas e carregado de tâmaras. Ora, depois disso, veio a Samos, cidade da Lícia, onde, não compreendendo a língua do país, pediu a Deus que lhe desse a inteligência dela. Ora, enquanto estava em orações, os juízes, acreditando que ele era louco, deixaram-no.
Cristóvão, tendo obtido o que pedia, com o rosto coberto, veio aos locais do combate e fortalecia no Senhor os cristãos que eram atormentados. Então, um dos juízes golpeou-o no rosto. Cristóvão disse-lhe, cobrindo a face com um disco: «Se eu não fosse cristão, logo teria vingado esta injúria».
Então, fincou seu cajado na terra e pediu a Deus que florescesse para a conversão do povo. O que tendo acontecido imediatamente, oito mil homens se converteram. Ora, o rei enviou duzentos soldados para que lho trouxessem; e estes, tendo-o encontrado em oração, temeram comunicar-lhe essa ordem. O rei enviou outros tantos; e, tendo-o encontrado também em orações, rezaram com ele. Ora, Cristóvão, levantando-se, disse-lhes: «Que buscais, meus caros filhos?». Vendo seu rosto, disseram-lhe: «O rei nos enviou para que te levemos a ele amarrado». Cristóvão disse-lhes: «Se eu não quisesse, não poderíeis levar-me nem livre nem amarrado». Disseram-lhe: «Se tu não queres, vai-te em liberdade para onde bem entenderes, e diremos ao rei: Não o encontramos». — «Não», disse ele, «mas irei convosco».
Ora, ele os converteu à fé, e fez com que lhe atassem as mãos atrás das costas e fez-se apresentar amarrado ao rei. O rei, ao vê-lo, ficou aterrorizado e caiu de seu trono; depois, levantado por seus servos, interrogou Cristóvão sobre seu nome e sua pátria. Cristóvão respondeu-lhe: «Antes do meu batismo eu me chamava Reprovado; mas, agora, chamo-me Cristóvão; antes do meu batismo eu era cananeu, mas agora sou cristão».
O rei disse-lhe: «Tu te impuseste um nome tolo, ao tomar o de Cristo, que foi crucificado e que nada pôde nem por si nem por ti; ímpio cananeu, por que não sacrificas aos nossos deuses?». Cristóvão disse-lhe: «Têm razão em te chamar Dagus: pois tu és a morte do mundo, o companheiro do diabo. Quanto aos teus deuses, são obra da mão dos homens». O rei disse-lhe: «Tu fos te cr iado entre as bestas selvagens, não sabes dizer senão palavras selvagens e desconhecidas dos homens; agora, pois, se quiseres sacrificar, obterás de mim as maiores honras; caso contrário, morrerás nos mais terríveis suplícios».
Cristóvão, não querendo sacrificar, ordenou que o colocassem na prisão e que decapitassem os soldados que tinham sido enviados para detê-lo. Em seguida, fez encerrar na mesma prisão duas jovens muito belas, uma das quais se chamava Niceia e a outra Aquilina, prometendo-lhes grandes recompensas se elas levassem Cristóvão a pecar com elas. Vendo isso, Cristóvão entregou-se à oração; mas, como as jovens o pressionavam com carícias e lisonjas, ele levantou-se e disse: «Que quereis e por que fostes introduzidas aqui?». Mas elas, aterrorizadas pelo brilho de seu rosto, disseram: «Tende piedade de nós, servo de Jesus Cristo, para que possamos crer no Deus que pregais». O que o rei tendo sabido, mandou trazê-las e disse-lhes: «Vocês também, então, foram seduzidas! Juro pelos deuses, se não sacrificarem, morrereis da morte mais cruel». Elas responderam: «Se queres que sacrifiquemos, ordena que limpem as ruas e que o povo se dirija ao templo».
Quando isso foi feito e o povo estava no templo, elas passaram sua cintura sagrada no pescoço dos deuses e, arrastando-os ao chão, reduziram-nos a pó e disseram aos presentes: «Ide, chamai os médicos, para que curem vossos deuses!».
Então, por ordem do rei, Aquilina é suspensa; atam aos seus pés uma pedra grande; todos os seus membros são dilacerados. Quando ela entregou sua alma ao Senhor, sua irmã Niceia é lançada nas chamas; mas ela sai delas sem nenhum mal, e imediatamente é decapitada. E depois disso, Cristóvão é apresentado ao rei, que ordena que o batam com varas de ferro, que coloquem sobre sua cabeça um capacete de ferro em brasa. Ordena em seguida que façam um assento de ferro, que nele atem Cristóvão e que joguem piche no fogo para queimá-lo; mas o assento derrete como cera e Cristóvão sai dele sem nenhum mal. Em seguida, o rei ordena que o atem a um poste e que quatrocentos soldados o perfurem com suas flechas. Mas as flechas ficaram todas suspensas no ar, e nenhuma pôde perfurá-lo. Ora, o rei, acreditando que ele estava perfurado, começou a zombar dele, e imediatamente uma das flechas veio do alto dos ares e, voltando-se contra o rei, perfurou-o no olho e ele ficou cego. Cristóvão disse: «Amanhã serei consumido. Então, pois, tirano, tu diluirás lama com meu sangue, colocarás sobre teu olho e serás curado». Então, por ordem do rei, levaram-no para decapitá-lo. E lá, tendo se derramado em oração, foi decapitado. Ora, o rei, tomando um pouco de seu sangue e colocando-o sobre seu olho, disse: «Em nome de Deus e de São Cristóvão!» e imediatamente foi curado. Então o rei creu, e ordenou que aqueles que blasfemassem contra o Deus de Cristóvão pereceriam imediatamente pela espada.
Extraído das Lendas dos Santos de Tiago de Voragine, vulgarmente chamada Legenda Áurea, edição de Colônia, 1476. Tivemos o prazer de fazer nossa tradução quase literal, sobre este monumento, tão raro hoje, da imprensa nascente.
Iconografia
Sinais e atributos
Entidades
Rede do relato
Os nomes, lugares e conceitos mais presentes na ficha, ponderados por sua centralidade no texto.
O sobrenatural em sua vida
Os milagres de São Cristóvão (Christophorus)
Perguntas frequentes sobre São Cristóvão (Christophorus)
Quem foi São Cristóvão (Christophorus)?
Gigante de origem cananeia, Cristóvão buscou servir ao maior príncipe do mundo. Após servir a um rei e depois ao diabo, consagrou-se a Cristo ajudando viajantes a atravessar um rio perigoso, carregando um dia o próprio Menino Jesus. Terminou mártir na Lícia após converter milhares de pagãos.
De que São Cristóvão (Christophorus) é santo padroeiro?
Padroados de São Cristóvão (Christophorus): viajantes, Sainte-Livrade-sur-Lot e Valence.
Para que se reza a São Cristóvão (Christophorus)?
Reza-se a São Cristóvão (Christophorus) por: proteção contra a morte súbita, proteção contra o granizo, proteção contra incêndios, proteção contra a peste e proteção contra a fome.
Como reconhecer São Cristóvão (Christophorus) na arte cristã?
Na iconografia, São Cristóvão (Christophorus) é reconhecível por: estatura gigantesca, Menino Jesus sobre os ombros, bastão florido e travessia de um rio.
Como São Cristóvão (Christophorus) morreu?
São Cristóvão (Christophorus) sofreu o martírio pela fé cristã (3.º século).
Quais milagres são atribuídos a São Cristóvão (Christophorus)?
4 milagres são atribuídos a este santo, notadamente: Sinal / prodígio, Multiplicação / provisão, Proteção / libertação e Cura.
Quais santos foram contemporâneos de São Cristóvão (Christophorus)?
Entre seus contemporâneos figuram: Santo Irineu de Lyon, Santo Ausônio de Angoulême, São Firmino de Pamplona e São Baudílio.
Quais são os outros nomes de São Cristóvão (Christophorus)?
Outras formas do nome: Christophorus, Reprouvé e Reprobus.
Anexos & entidades relacionadas
Dados estruturados para exploração: eventos, milagres, citações, lugares, atributos, padroados e entidades importantes citadas no texto.
Eventos marcantes
- Serviço a um rei cananeu e, depois, ao diabo
- Encontro com um eremita e serviço na travessia do rio
- Travessia do Menino Jesus pelas águas
- Conversão de quarenta e oito mil pessoas na Lícia
- Martírio por decapitação após vários suplícios infrutíferos
Citações
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Tu carregaste sobre ti não apenas o mundo inteiro, mas também Aquele que criou o mundo
O Menino Jesus a Cristóvão