Nascido em Mântua, João, o Bom, levou uma juventude dissipada antes que uma doença o conduzisse a uma conversão radical. Tornando-se eremita perto de Cesena, fundou uma congregação sob a regra de Santo Agostinho, distinguindo-se por austeridades extremas e numerosos milagres. Morreu aos 98 anos após ter predito a glória futura de suas relíquias.
Seus contemporâneos
Figuras e referências situadas em torno do período normalizado desta ficha.
Leitura guiada
9 seçãos de leitura
O BEATO JOÃO, O BOM, DE MÂNTUA
DA ORDEM DOS EREMITAS DE SANTO AGOSTINHO
Juventude e desvios
Nascido em Mântua, João afasta-se da educação cristã de seus pais para levar uma vida de devassidão durante suas viagens pela Itália.
É pela penitência que se adquire essa misericórdia sem a qual ninguém pode esperar perdão.
Vamos admirar, na pessoa do bem-aventurado João, o Bom, uma das mais belas luzes q ue apareceram na célebre Congregação dos Eremitas de Santo Agostinho. Este grande servo de Deus era da cidade de Mântua. Seu pai chamava-se João, e sua mãe, Bona , o que fez com que lhe dessem, seguindo o desejo de seus pais, o nome de João, o Bom. Quando seu pai morreu, ele abandonou por algum tempo os bons conselhos que dele havia recebido. Deixou até mesmo sua mãe e sua pátria para viajar pela Itália, por um espírito de curiosidade que o envolveu insensivelmente em várias desordens; as más companhias nas quais se encontrou em suas viagens atraíram-no para devassidões às quais sua natureza não o inclinava. Sua mãe, ao saber da vida desregrada que levava esse filho a quem amava ternamente, concebeu uma dor extrema; e, lembrando-se de que as lágrimas e as orações de Santa Mônica tinham outrora sido poderosas o suficiente junto a Deus para obter a conversão de Santo Agostinho, ela se serviu também desse mesmo meio p ara fazer seu filho retornar de seus desvios; de modo que Deus, tendo em conta as lágrimas que ela derramava noite e dia, e as fervorosas orações que fazia para esse fim, enviou uma doença salutar a este jovem no momento mesmo em que ele estava nos maiores divertimentos de sua juventude.
Conversão e voto
Tocado por uma enfermidade providencial e pelas orações de sua mãe, João promete consagrar-se a Deus caso recupere a saúde.
O estado de enfermidade a que se viu reduzido, privando-o por necessidade do uso de todos os prazeres que tanto estimava, fê-lo reconhecer a vaidade da vida dos sentidos; compreendeu que esta doença era um golpe de Deus que o punia por sua infidelidade e pelo abuso que fazia da boa natureza com que fora favorecido, e não duvidou de que o mal que lhe enviava fosse para dispô-lo a um grande bem; de modo que, sem mais diferir, renunciou de bom grado a todos os prazeres e a todas as vaidades deste mundo, e prometeu ao mesmo tempo a Deus, por um voto muito sério, que deixaria o século e se retiraria para um claustro, se aprouvesse à Sua divina bondade fazê-lo recuperar-se desta doença.
Retiro em Cesena
Após sua cura, ele distribui seus bens aos pobres e se retira para uma gruta perto de Cesena para praticar uma penitência rigorosa.
O santo jovem recuperou a saúde perfeita; e, reconhecido pela graça que acabara de receber, quis executar, sem demora, a promessa que havia feito. Foi encontrar, para esse fim, o bispo de Mântua, tornou-o depositário de seu segredo, revelou-lhe os santos ardores pelos quais sentia seu coração inflamado, fez-lhe uma confissão geral; e, enfim, após ter distribuído todos os seus bens aos pobres, em conformidade com os conselhos do Evangelho, deixou sua própria terra e todos os seus parentes, depois retirou-se, com o consentimento do mesmo prelado que acabamos de citar, para um eremitério bem perto de Cesena, ci dade d a Romanha, na Itál ia. Encontrou felizmente neste lugar uma gruta muito retirada no deserto, a qual era muito conveniente ao seu desígnio, que era o de se afastar inteiramente do comércio do mundo para dedicar-se em liberdade à penitência e à oração; fechou-se, portanto, nesta solidão e começou a expiar ali todos os vícios de sua juventude por meio de jejuns, vigílias, austeridades corporais, o exercício da oração vocal e mental, e por uma infinidade de outras práticas que pareciam mais derivar da crueldade do que da virtude da penitência.
Tentações e vitórias
Ele supera tentações de gula e luxúria por meio de mortificações extremas, recebendo uma cura milagrosa de suas feridas.
A coragem e a fidelidade com as quais perseverava neste gênero de vida espantaram as potências do inferno; o demônio, para deter, se pudesse, tão grandes progressos na virtude, lançou-lhe dois ataques particulares que nosso Santo superou corajosamente. O primeiro foi sobre a gula, ou melhor, sobre a gulodice, representando-lhe os pedaços delicados dos quais se saciara e os festins deliciosos nos quais outrora se encontrara; o bem-aventurado João evitou esta primeira armadilha colhendo todo um prato de folhas de silvas selvagens, muito amargas ao gosto e até um pouco espinhosas, que comeu todas cruas para sua refeição sem qualquer tempero, com uma firme resolução de reiterar este remédio se a tentação voltasse; mas este meio foi tão eficaz que o inimigo não o tentou mais por este lado.
Foi, contudo, atacado de outra maneira: o espírito maligno representando-lhe com cores extremamente vivas a imagem de uma criatura que outrora admirara, e excitando nele faíscas de um fogo desonesto que o fazia sentir entre os espinhos de seu cilício e em meio à frieza de sua abstinência; o santo Penitente, cujo coração estava em Deus, para superar este assalto, enterrou com coragem heroica pontas de juncos muito agudas nas pontas dos dedos, entre a carne e as unhas; a dor que sentiu foi tão viva e penetrante que caiu em desfalecimento e permaneceu por três dias semimorto. Este meio, que uma prudência comum teria condenado, foi, no entanto, tão aprovado por Deus, que Ele lhe deu a conhecer que estaria isento pelo resto de seus dias de semelhantes tentações: recebeu até milagrosamente a cura perfeita de todas as feridas que fizera nas pontas de todos os dedos de ambas as mãos.
Fundação e regra
Atraindo numerosos discípulos, funda vários mosteiros e adota a regra de Santo Agostinho com a aprovação do Papa Inocêncio III.
Embora o servo de Deus trabalhasse assim para superar, com uma coragem incrível, os ataques do inferno no segredo do retiro de uma floresta profunda, não se deixou, contudo, permitindo-o Deus, de o descobrir finalmente e de reconhecer o seu insigne mérito; o que lhe atraiu discípulos em tão grande número, que foi obrigado a construir pequenas celas e oratórios particulares, e depois uma igreja, com o consentimento do Ordinário, em honra da santa Virgem; e a coisa chegou a tal ponto que, aumentando o número de penitentes dia após dia, o bem-aventurado João foi forçado a construir, em diversos lugares, vários mosteiros para receber todos os que se apresentavam. Estes piedosos eremitas não tinham a princípio uma regra particular, e contentavam-se em observar alguns regulamentos que o Bem-aventurado lhes dava de viva voz; mas, estando finalmente resolvido a conformar-se com os seus religiosos a alguma das regras antigas já estabelecidas e recebidas na Igreja, escolheu a dos Eremitas de Santo Agostinho: e para que a coisa f osse mais bem recebida e mais autêntica, enviou pedir a aprovação do soberano Pontífice que era então Inocêncio III, o qual, estando bem informado do mé rito e da sa ntidade das intenções do venerável João, concedeu-lhe voluntariamente o que pedia, permitindo-lhe, assim como aos seus discípulos, viver, pronunciar votos e redigir constituições e leis em conformidade com a Regra de Santo Agostinho.
Este santo personagem conduziu es ta obra com uma prudênc ia admirável; e, vendo as bênçãos que Deus dava à sua Congregação, e que todos os seus religiosos viviam em uma perfeita obediência, encontrou meio, por um efeito de humildade, de se demitir do cargo de geral que ocupava, e de o dar a outro, a fim de viver ele mesmo em um estado mais oculto, e de ter mais lazer para dedicar-se em liberdade aos exercícios da contemplação e da mortificação, que são os dois principais artigos da vida dos solitários. Com efeito, quando obteve não ser mais prior geral, recomeçou a levar um gênero de vida mais austero e mais regular do que aquele que tinha mantido até então, e não sustentou menos eficazmente pelo seu próprio exemplo a obra que tinha começado, do que quando fazia as suas exortações e dava leis por escrito e de viva voz, sendo geral.
Ascetismo extremo
João pratica jejuns heroicos, notadamente três quaresmas anuais, e impõe a si mesmo condições de vida de uma dureza excepcional.
Ele contava tão pouco com as mortificações e as penitências que praticara até então na solidão, que se obrigou novamente por voto a fazer todos os anos três Quaresmas durante todo o resto de sua vida. A primeira era aquela à qual a Igreja obriga os fiéis antes da Páscoa: ele a observava com um rigor tão extremo que, no dia de Cinzas, tomava apenas três onças de pão, as quais dividia em pequenos pedaços, e cada um desses pequenos pedaços constituía sua refeição de cada dia: depois, quando chegava a Quinta-feira Santa, ele multiplicava tão abundantemente o restante, que havia o suficiente para dar uma refeição a um grande número de religiosos que ele reunia nessa época para celebrar com eles a festa da Páscoa.
A segunda Quaresma que ele fazia era desde a oitava da Páscoa até o Pentecostes: durante o espaço desse tempo, ele não usava outro alimento senão aquele que podia receber da santa comunhão que tomava então todas as manhãs; pois, nos outros tempos, contentava-se em ouvir a santa missa e comungar aos domingos e dias santos. Ele fazia sua terceira Quaresma imediatamente antes das festas de Natal, e então não tomava para sua refeição de cada dia senão três favas; durante todo o resto do tempo, jejuava exatamente a pão e água às segundas, quartas e sextas-feiras de cada semana. Ele nunca comia carne, nem mesmo estando doente, embora isso fosse permitido naquela época.
Se ele era tão rigoroso no viver, não o era menos no vestir: pode-se dizer que ele só usava algumas roupas para não parecer nu; ele não se servia, em seu eremitério, senão de uma simples túnica tecida de palha, a qual, no entanto, tornou-se desde então um admirável instrumento de cura para um grande núme ro de doentes que vieram pedir para aplicá-la após sua morte: Deus fazendo conhecer por aí o quanto Ele tinha por agradáveis as austeridades de seu Servo. Sua história diz também que ele tinha três camas em sua cela: uma era de troncos de árvores muito mal ajustados e mais próprios para fazer sofrer o martírio a um corpo do que para servir-lhe de lugar de repouso; assim, sua intenção era a de não se servir dela senão para causar a si mesmo uma grande fadiga e uma dor extrema. A segunda de suas camas era uma cova que era mais profunda de um lado do que do outro; ele descia a certas horas do dia a essa espécie de sepulcro e deitava-se ali, colocando sua cabeça do lado que era o mais profundo para ali estar em maior sofrimento, e ele não deixava a postura que ali tomava senão após ter recitado devotamente duzentas vezes a Oração dominical; enfim, sua terceira cama era uma tábua bem simples sobre a qual ele repousava, tendo apenas um pedaço de madeira para sua cabeceira. É assim que o espírito de penitência fazia este grande Servo de Deus encontrar belas invenções para não dar nenhum repouso à sua carne e para carregar continuamente a mortificação de Jesus Cristo em seu corpo.
Combates espirituais e dons
Vítima de ataques demoníacos físicos, ele beneficia, em contrapartida, de visões de Cristo, do dom da profecia e de uma ciência infusa.
Embora o bem-aventurado João, o Bom, vivesse em perfeita inocência e não desse nenhuma brecha ao seu inimigo, o demônio, que não podia suportar que ele observasse uma fidelidade tão grande aos seus exercícios e que perseverasse como fazia dia e noite nas práticas da mais alta contemplação, entregou-lhe grandes combates: ora aparecia-lhe sob figuras horríveis para assustá-lo e distraí-lo no doce repouso de sua oração, ora movia-lhe uma guerra aberta, golpeando-o duramente; por vezes, ameaçava-o de travar combates pelo resto de seus dias; outras vezes, suscitava contra ele as calúnias mais atrozes para fazê-lo perder sua reputação e diminuir a confiança que os povos tinham nele. Este monstro infernal atacava-o mais comumente quando ele estava sobre o rude leito de madeira de que falamos, e, não podendo suportar as dores voluntárias que o Santo sofria estando deitado sobre ele, retirou-o um dia, depois de tê-lo antes bem atormentado, e lançou-o tão rudemente sobre o chão de seu quarto que ele ficou gravemente ferido. Seria muito longo dar aqui o relato de tantos combates diferentes; bastaria dizer que ele permaneceu sempre vencedor de seu inimigo, seja usando o sinal da cruz, seja fazendo atos interiores de uma perfeita confiança em Deus, seja continuando com uma fidelidade incomparável os exercícios da oração e da mortificação que mais desagradavam ao inimigo, seja desculpando-se com uma tranquilidade e uma modéstia angélicas diante de seu bispo, de todas as imposturas e calúnias mais negras que se suscitavam contra sua pessoa: de modo que todas as adversidades que lhe aconteciam, tanto da parte dos homens quanto da parte do inferno, nunca serviram senão para aumentar sua paciência e suas vitórias, e para elevar diante de Deus e diante do mundo seu insigne mérito.
Não nos deteremos aqui a descobrir em detalhe as comunicações interiores que ele recebia da parte do céu, diremos apenas que elas eram proporcionadas aos trabalhos que ele sofria, e que, se os demônios o atacavam visivelmente sob formas corporais, Jesus Cristo, por outro lado, sob cujas ordens ele sustentava seus combates, aparecia-lhe também frequentemente de forma visível sob forma humana, para fortificá-lo e consolá-lo em seus trabalhos. Essas graças e esses insignes favores lhe eram comunicados especialmente quando ele meditava os mistérios da paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo. Suas visões exteriores eram sempre acompanhadas de uma grande abundância de consolações interiores e de luzes extraordinárias; era nesse doce comércio que ele aprendia as coisas futuras que não podia saber por conhecimentos naturais: o que o fazia predizer vários eventos, determinando circunstâncias tão particulares que causavam admiração e um grande espanto a todos aqueles que delas tinham conhecimento. Um doente, sendo abandonado por todos os médicos como prestes a morrer, o Santo previu, contra toda aparência, que ele voltaria logo a uma perfeita saúde: o que aconteceu, de fato, pouco tempo depois. Declarou ainda que um certo religioso abandonaria seu estado e deixaria o hábito de religião, mas, no entanto, que ele se reconheceria tão bem depois, que faria um fim muito feliz, e que se prestariam até grandes honras ao seu corpo após seu falecimento: o que aconteceu como ele havia predito.
Ele extraía ainda do santo exercício da contemplação a solução de uma infinidade de dificuldades muito espinhosas, das quais teria sido difícil penetrar o fundo por ciências humanas. É por isso que, embora nunca tivesse estudado muito e tivesse apenas uma leve tintura das letras humanas, não deixou de resolver muito nitidamente uma questão das mais delicadas do direito canônico, tocante ao matrimônio, na presença de dois famosos advogados muito experientes, os quais ficaram extremamente surpresos ao ouvir da boca do Santo a explicação de sua dificuldade, e de ver até que ele lhes citava o lugar do direito onde se encontrava a solução que lhes dava.
Milagres e fim da vida
Após realizar milagres notáveis, ele retorna para morrer em Mântua aos 98 anos, cercado por anjos.
Ele realizou coisas verdadeiramente milagrosas durante o curso de sua vida, as quais são provas convincentes de sua inocência e do poder que Deus lhe havia dado sobre as criaturas. Um motivo de pura caridade para com um religioso do eremitério onde ele vivia o levou a realizar uma ação que não devemos omitir aqui. Um jovem irmão, tendo resolvido por tentação retornar ao século e abandonar sua vocação, o Santo, tendo ido esperá-lo no lugar por onde ele deveria passar para ir embora, tomou-o pela mão e, conduzindo-o perto de um grande fogo, saltou dentro dele em sua presença, estando descalço; então, tendo caminhado por muito tempo sobre as brasas ardentes sem ser ofendido de maneira alguma, disse àquele religioso, que ele via todo surpreso e como que em êxtase por testemunhar tal maravilha: «Meu irmão, o motivo do seu espanto cessará se você compreender que Deus concede tantas graças e misericórdia àqueles que, tendo se consagrado a Ele, são fiéis em perseverar em sua vocação, que a água, o fogo e todas as outras criaturas tornam-se submissas e solícitas a eles, perdendo suas qualidades naturais ou adquirindo novas em favor desses mesmos servos de Deus». E, para uma maior prova do que lhe dizia, tomou imediatamente, no fogo, um tição todo aceso que foi plantar na terra pela ponta que queimava, e, coisa surpreendente, Deus, respondendo à fé de seu servo, o bastão reverdeceu imediatamente e encontrou-se em pouco tempo carregado de folhas e belos frutos muito bons para comer. Tão grandes maravilhas abriram os olhos do religioso que estava prestes a sair; ele deplorou sua covardia, admirou o poder que Deus dava aos seus servos quando eles lhe eram fiéis, e finalmente perseverou em sua primeira vocação e teve um fim feliz na religião.
A grande reputação que ele adquiriu, tanto pela santidade de sua vida quanto pelo número de prodígios que realizava, atraiu-lhe tantas visitas de todas as partes, que ele resolveu retirar-se para algum lugar desconhecido para evitar a vanglória e ser menos exposto aos louvores dos homens. Partiu, pois, secretamente uma noite de seu eremitério; mas, por uma disposição da divina Providência, após ter caminhado bem a noite toda, pela manhã, acreditando estar bem longe e fora de condições de ser alcançado por aqueles que ele sabia que deveriam persegui-lo, encontrou-se diante da porta de sua cela, de onde havia saído na noite anterior: o que o fez logo concluir que Deus, que havia assim regulado seus passos, não aprovava sua retirada nem que ele se afastasse daquele lugar, porque ele deveria ali sustentar seus irmãos na austeridade da disciplina religiosa pela força de seu exemplo, e assistir e favorecer com seus bons socorros aqueles que recorressem a ele em suas desgraças e em suas doenças.
Mal o santo eremita havia retornado àquele lugar, quando Deus fez conhecer ainda mais claramente que era a divina Sabedoria que o detinha ali; como os pais de um jovem endemoniado queriam levá-lo ao bem-aventurado João, o Bom, a fim de que ele o libertasse da tirania daquele mau hóspede, o demônio nunca quis se resolver a ir para onde desejavam levar o doente, dizendo que sabia bem para onde queriam conduzi-lo, mas que não iria; os pais, no entanto, tendo encontrado o meio de transportar seu filho para a igreja do lugar onde estava o bom eremita, não tinha ele acabado de chegar, quando o demônio, sem esperar sequer a presença do Santo que se pedia, saiu imediatamente do corpo do doente, para grande espanto da assembleia, que não podia admirar o suficiente, por um lado, o respeito que o demônio tinha pelo santo religioso, e, por outro, o grande poder que o servo de Deus tinha sobre as potências infernais.
Somos obrigados a passar em silêncio várias outras belas ações para não sermos muito extensos neste resumo, e para retornar ao fim que coroou felizmente a fidelidade e os trabalhos deste grande servo de Jesus Cristo. Tendo, pois, preenchido dignamente a medida das boas obras que Deus esperava dele para fazê-lo participar de sua glória, ele foi avisado por um anjo para ir a Mântua, que era o lugar de seu nascimento, onde Deus queria que seu corpo fosse inumado e recebesse grandes hon ras. O Santo obedeceu, e, como o poder e a faculdade de fazer milagres o seguiam por toda parte, encontrou-se ainda obrigado a realizar, antes de seu falecimento, uma maravilha que não devemos omitir. Uma mulher, tendo perdido seu filho único em quem ela depositava toda a sua confiança e toda a sua consolação, não falava de outra coisa senão de morrer, e dizia que queria absolutamente ser enterrada com seu filho que havia falecido, não podendo sobreviver a tal perda; seus amigos persuadiram-na a recorrer ao bem-aventurado João, o Bom, para quem nada era difícil, para pedir-lhe que devolvesse a vida ao seu filho; ela aceitou o conselho e, cheia de confiança em Deus e de estima pelo santo Eremita, levou o corpo de seu filho morto à sua cela, conjurando-o por todos os tipos de orações a obter de Deus a consolação de receber com vida esse filho que lhe era tão caro. O Santo, cuja caridade não tinha limites, pôs-se em oração, e, quando passou três dias inteiros junto ao falecido para obter do céu a vida da qual ele havia sido privado, Deus, atendendo finalmente às orações do Santo, devolveu a vida ao morto, para grande espanto de toda a cidade de Mântua, que foi testemunha dessa maravilha; mas, enfim, aquele que acabara de obter tão facilmente a vida para um estranho, não respirando nada tanto quanto morrer para ir desfrutar em liberdade da presença de seu Deus, aceitou com grande alegria sair deste mundo; de modo que, após ter avisado seus irmãos do dia de seu falecimento, exortou-os a observar bem seus votos e a nunca se afastarem das práticas da mortificação e da penitência: «Não procurem aqui embaixo outra alegria», disse-lhes, «que aquela que uma boa consciência recebe das boas obras que se faz; nunca se esqueçam de imitar os exemplos de nosso Salvador e Redentor Jesus Cristo, que é nosso Mestre comum; será por este meio que todas as coisas terão sucesso para vocês nesta vida, e que vocês merecerão a glória na outra».
Um pouco antes de sua morte, um religioso tomou a liberdade de perguntar-lhe o que seu corpo se tornaria após seu falecimento; ele respondeu que os homens o tratariam com grande respeito, e que Deus faria ver muitas maravilhas ao redor dele durante vários anos; que se esqueceria, no entanto, durante um tempo, todas essas coisas, mas que aprazeria à divina Providência colocá-lo em tão grande reputação, que ele seria respeitado por toda a terra: o que o evento fez ver ser verdadeiro. Enfim, tendo chegado o último instante de sua partida deste mundo, uma tropa de anjos cercou seu leito, e ouviu-se uma voz que o convidava a vir desfrutar das delícias eternas na companhia de seus irmãos que o haviam precedido na glória, e, no mesmo momento, ele entregou sua bela alma a Deus. Foi no dia 23 de outubro do ano da graça de 1222, estando com noventa e oito anos de idade.
Seu corpo foi inumado com muitas honras, como ele havia predito, e, dezoito meses após ter sido colocado na terra, encontraram-no inteiro quando o levantaram para lhe dar uma sepultura ainda mais honrosa que a primeira.
Iconografia e fontes
O santo é tradicionalmente representado com um lírio e uma caveira; sua vida é documentada pelos anais de sua ordem.
É representado segurando um lírio em uma mão e uma caveira na outra, para marcar as lutas que teve de sustentar contra a impureza após sua conversão, e o pensamento da morte que era o objeto de suas meditações assíduas.
Compusemos esta vida com base nas memórias que se encontram na História dos homens ilustres da Ordem dos Eremitas de Santo Agostinho.
Iconografia
Sinais e atributos
Entidades
Rede do relato
Os nomes, lugares e conceitos mais presentes na ficha, ponderados por sua centralidade no texto.
O sobrenatural em sua vida
Os milagres de Beato João, o Bom, de Mântua
Perguntas frequentes sobre Beato João, o Bom, de Mântua
Quem foi Beato João, o Bom, de Mântua?
Nascido em Mântua, João, o Bom, levou uma juventude dissipada antes que uma doença o conduzisse a uma conversão radical. Tornando-se eremita perto de Cesena, fundou uma congregação sob a regra de Santo Agostinho, distinguindo-se por austeridades extremas e numerosos milagres. Morreu aos 98 anos após ter predito a glória futura de suas relíquias.
De que Beato João, o Bom, de Mântua é santo padroeiro?
Padroados de Beato João, o Bom, de Mântua: Eremitas de Santo Agostinho.
Para que se reza a Beato João, o Bom, de Mântua?
Reza-se a Beato João, o Bom, de Mântua por: cura de doenças e libertação de possessos.
Como reconhecer Beato João, o Bom, de Mântua na arte cristã?
Na iconografia, Beato João, o Bom, de Mântua é reconhecível por: lírio, crânio e túnica de palha.
Quais milagres são atribuídos a Beato João, o Bom, de Mântua?
6 milagres são atribuídos a este santo, notadamente: Cura, Multiplicação / provisão, Domínio dos elementos e Sinal / prodígio.
Quais santos foram contemporâneos de Beato João, o Bom, de Mântua?
Entre seus contemporâneos figuram: São Bernardo de Claraval, Santo Arthaud de Belley, São Norberto de Magdeburgo e Santo Antônio de Pádua (Fernando).
Quando Beato João, o Bom, de Mântua morreu?
Beato João, o Bom, de Mântua morreu por volta de 1222.
Quais são os outros nomes de Beato João, o Bom, de Mântua?
Outras formas do nome: Giovanni Buono.
Quem são os familiares de Beato João, o Bom, de Mântua?
Familiares de Beato João, o Bom, de Mântua: Jean (pai) e Bonne (mãe).
Anexos & entidades relacionadas
Dados estruturados para exploração: eventos, milagres, citações, lugares, atributos, padroados e entidades importantes citadas no texto.
Eventos marcantes
- Juventude dissipada e viagens pela Itália
- Conversão após uma doença salutar
- Retiro em um eremitério perto de Cesena
- Fundação de uma congregação de eremitas
- Adoção da regra de Santo Agostinho com a concordância de Inocêncio III
- Renúncia ao cargo de Prior Geral para retornar à vida solitária
- Retorno a Mântua antes de sua morte
Citações
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Não busqueis aqui na terra outra alegria que não a que uma boa consciência recebe das boas obras que se pratica.
Últimas palavras aos seus irmãos