Bento José Labre
Nascido em Artois em 1748, Bento José Labre renuncia à vida monástica para se tornar um peregrino mendicante, percorrendo os santuários da Europa em total despojamento. Apelidado de 'Santo Aleixo de seu século', passa seus dias em adoração diante do Santíssimo Sacramento, particularmente em Roma. Morre em 1783 em odor de santidade, desencadeando um fervor popular imediato.
Seus contemporâneos
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O BEATO BENTO JOSÉ LABRE
Origens e piedade precoce
Benoît-Joseph nasceu em 1748 em Amettes em uma família piedosa e manifestou desde a infância uma atração excepcional pela oração e pela mortificação.
No século XVIII, um pequeno vilarejo da província de Artois, chamado Amettes, e dependente do bispado de Boulogne, havia conservado toda a simplicidade dos costumes antigos e toda a pureza de nossa santa religião. Deus voltou seus olhos para lá, como outrora para a menor das cidades de Judá, e ali, em uma família que possuía a tradição de fornecer grande parte de seus membros ao recrutamento do clero diocesano, Ele escolheu um ramo recomendável entre todos por uma probidade secular, para dele fazer sair um emulador do patriarca de Assis, um novo imitador daquele que, possuindo todos os tesouros da divindade, fez-se pobre por nós; um homem, enfim, que levava voluntariamente o amor e a prática da santa pobreza tão longe quanto é possível imaginar.
Os chefes deste ramo, Jean-Baptiste Labre e Anne-Barbe Grandsire, sua esposa, obtiveram, para seu casamento, a bênção que Deus concedia aos antigos patriarcas, aos quais se assemelhavam pela fidelidade aos costumes de seus ancestrais. Tiveram quinze filhos, que criaram sem grandes dificuldades, pois possuíam uma estabilidade suficiente para seus gostos moderados. Benoît-Joseph, o primogênito desta bela l inhagem, nasc eu em 26 de março de 1748.
Criança verdadeiramente abençoada, e que recebeu este nome talvez por uma disposição secreta da Providência: o Criador o dotou de um espírito vivo e penetrante, de um juízo são e sólido, de uma memória fácil e segura. Seu coração era terno, sua vontade forte, sua alma nunca abandonava a verdade uma vez conhecida. Ele anunciou, desde seus primeiros anos, inclinações pronunciadas para o bem, gostos simples e inocentes, uma grande ingenuidade, sinal ordinariamente precursor da retidão dos sentimentos. Seu caráter vivo foi logo temperado por sua razão nascente e por uma grande submissão aos seus pais. Estes lhe transmitiram, como o mais belo dos patrimônios, os sentimentos de piedade que haviam herdado de seus ancestrais. Inspiraram-lhe desde cedo o temor de Deus, que é a verdadeira sabedoria; uma profunda estima por sua qualidade de cristão, assim como uma terna devoção à santíssima Virgem e ao seu Esposo, que a confiança do povo não separa um do outro: Jesus, Maria, José, foram as primeiras palavras que sua língua aprendeu a pronunciar.
Ainda bem pequeno, ele dava uma atenção séria aos sábios propósitos, amava rezar e ouvir falar das verdades da religião. Colocava uma graça encantadora ao desenhar seu sinal da cruz e ao balbuciar as fórmulas que sua mãe lhe ditava. «Desde sua mais tenra infância, declarou ela, assim como seu marido, eu o vi deleitar-se com as práticas religiosas e imitar tudo o que se fazia na igreja, onde eu podia levá-lo e mantê-lo tanto quanto quisesse.»
A graça, o exemplo e os ensinamentos de sua família gravaram de maneira inefável, neste coração já senhor de suas paixões, as grandes máximas da religião, sobre a obrigação de servir a Deus, de seguir Jesus Cristo renunciando a si mesmo, sobre a necessidade de mortificar seus sentidos e de fazer penitência para viver uma vida sobrenatural. Viu-se despontar desde então, nesta criança de quatro anos, uma atração particular pela mortificação, uma espécie de desinteresse pelo conforto e pelas comodidades, e uma indiferença muito superior à sua idade, pelo alimento e pelo vestuário. Aos cinco anos, a oração feita em comum por toda a família não lhe bastava; ele se retirava algumas vezes à parte para recitar aquelas que sabia. Já fazia suas delícias preparar-se para servir a santa missa; qualquer coisa que lhe pedissem que tivesse relação com Deus, ele não encontrava nenhuma dificuldade e se dedicava com o maior entusiasmo.
A Providência colocou então em seu caminho, como um segundo anjo da guarda para guiar seus primeiros passos no caminho da ciência e da piedade, que convinha à sua idade, Jacques-Joseph Vincent, o mais velho de seus tios maternos, que, já subdiácono, preparava-se para o sacerdócio pela regularidade dos mais austeros religiosos. Apaixonado pelas aptidões que notava em seu sobrinho, começou a cultivá-lo com afeição; passava parte de seus dias instruindo-o e treinando-o nos exercícios de devoção. Levava-o e retinha-o na igreja durante longas horas que teriam desencorajado qualquer outro; empregava-o para varrê-la e enfeitá-la conforme suas forças; ensinava-lhe, em forma de recreação, o cerimonial do serviço da missa. Quando seu tio retornou ao seminário, o jovem Benoît foi às escolas, onde se mostrou avaro de seu tempo, cheio de confiança em seus mestres; inimigo da dissipação, tão comum nessa idade, amava a companhia das pessoas sábias e reflexivas, e seu maior prazer era ouvi-las. Retirava-se frequentemente para ler livros de piedade.
Mas o que demonstra melhor o trabalho da graça divina nesta alma pura é seu ardor crescente pelas mortificações, à medida que crescia; ele já se esforçava para mortificar seu corpo por meio de privações. Então, renovando os exemplos de São Casimiro e de São João da Cruz, colocava algumas vezes uma tábua sobre seu travesseiro para repousar a cabeça menos suavemente. Sua modéstia era tal que, quando conversava com pessoas do outro sexo, jamais levantava os olhos para elas, de modo a distingui-las umas das outras. Foi sobretudo por volta de sua sétima ou oitava idade que seu gosto se pronunciou pelos exercícios da religião e por uma oração mais frequente. Por si mesmo, ele ia à igreja quando podia, seja pela manhã, seja durante o dia. Assim que foi suficientemente instruído, suas delícias foram servir a missa, e ele o fazia com tanta modéstia e conveniência, que os assistentes ficavam maravilhados. Era um gracioso espetáculo vê-lo ao pé do altar, manter suas pequenas mãos juntas devotamente diante do peito, os olhos baixos, a cabeça imóvel, em uma palavra, na atitude de um anjo! Toda a sua distração era cumprir bem o cerimonial. Todos os que foram testemunhas da piedade que irradiava em seu rosto e em toda a sua pessoa, lembravam-se disso ainda vinte e cinco anos depois, como se tivesse sido algo muito recente, e não falavam disso senão com admiração: por essa época, aprouve a Deus chamar a si uma irmã de Benoît, nascida há poucos meses: ele a contemplou por quase uma hora, e dizia em voz alta: «Querida pequena, como teu destino é digno de inveja! Por que não posso ser tão feliz quanto tu!»
Conta-se ainda na região que, passeando um dia no cemitério do vilarejo, ele ouviu jovens proferirem alguns comentários livres, e que imediatamente se retirou e se pôs de joelhos diante de uma cruz, rezando ao bom Deus por aqueles que acabavam de ofendê-Lo. Enfim, pode-se aplicar a ele o elogio que São Bernardo fez do jovem Malaquias: «Embora criança pelos anos, tinha os costumes de um ancião.»
Educação e tentativas monásticas
Formado por seus tios eclesiásticos, ele tenta sem sucesso ingressar na Trapa e na Cartuxa, enfrentando recusas ou problemas de saúde.
Quando Bento estava em seu décimo terceiro ano, seus pais confiaram sua educação ao seu tio e padrinho François-Joseph Labre, pároco de Erin. Foi na casa desse santo sacerdote que ele se uniu pela primeira vez ao seu Salvador. Ele não havia negligenciado nada para preparar um alojamento limpo e bem ornamentado para esse hóspede divino; e quando o recebeu, nada aqui embaixo poderia dar uma ideia das delícias pelas quais foi inundado. Recebeu no mesmo dia o espírito de verdade na Confirmação; desde então, ele foi totalmente transformado, tornou-se uma nova criatura animada pela própria vida de Jesus Cristo. Agora que provou o sabor do maná celestial, parece que perdeu todo outro gosto, mesmo pelos alimentos mais indispensáveis para a nutrição do corpo. Começa desde então a privar-se frequentemente e em segredo de uma parte dos alimentos que lhe são dados, e os distribui, sem que se perceba, por uma janela, a um pobre a quem designa esse encontro. Ele teria pisado nos frutos mais requintados no jardim de seu tio, em vez de tocar naqueles mesmos que eram os mais capazes de tentá-lo; ele teria tido escrúpulo de colher um único, mesmo que tivessem caído da própria árvore. Outro efeito da comunhão foi o aumento de seu recolhimento habitual: ele não sentia mais prazer em nada a não ser conversar com Deus, a sós, e escolhia para isso os lugares mais retirados. Daí veio sua predileção por um gabinete afastado na casa paroquial, onde se tinha certeza de encontrá-lo, quando o dever não o chamava a outro lugar; se não o encontrassem lá, era preciso ir à igreja, onde o viam em adoração diante do Santíssimo Sacramento. Ele teria passado dias inteiros e quase noites nesse celeste colóquio de sua alma com seu Salvador, demonstrando, por seu exemplo, que nele não se encontra nem amargura nem tédio.
Se ele comungava apenas todos os meses, é porque sua alma, ávida por esse pão celestial, era retida pelos escrúpulos de uma consciência timorata ao extremo. Percebeu-se também nele um redobramento de zelo pela glória de Deus e pela salvação do próximo. Quando era testemunha de alguma ofensa grave à majestade divina, sua dor ia até a consternação. Ele aproveitava todas as ocasiões para ensinar a doutrina cristã, ou para dar alguma instrução piedosa às crianças abaixo de sua idade. Ele instruía-se na língua latina, não apenas por obediência, mas também porque era a língua da Sagrada Escritura e dos ofícios da Igreja. Todo o tempo que podia economizar, ele o consagrava a leituras piedosas: a biblioteca de seu tio mal bastava para sua atividade. É assim que ele empregava as folgas que lhe eram concedidas, ou então as consagrava a algumas boas obras, como visitar pobres doentes, ou eclesiásticos piedosos das redondezas, com os quais pudesse conferir sobre religião.
Um dia de festa padroeira, seu tio, não o vendo com os jovens de sua idade, com os quais o havia enviado, disse aos que o rodeavam: «Aposto que meu sobrinho foi para algum canto para ler ou para rezar.»
O Sr. Dupuich, diretor do piedoso jovem, teve a curiosidade de certificar-se do fato. Ele o procura por toda parte: enfim, encontra-o em um celeiro, prostrado diante de um crucifixo que ele havia suspendido na parede. Bento estava tão absorto em sua oração, que não ouviu nada; e, surpreso tanto quanto edificado, o Sr. Dupuich afastou-se, não querendo perturbá-lo em uma tão santa recreação. Ele preludiava assim o gênero de vida que levou até sua morte, que se pode resumir em duas palavras: rezar, sofrer. Ele não perdia uma ocasião de sofrer, com menos desgosto do que um avarento perde a ocasião de enriquecer. Nos frios mais rigorosos, ele nunca se aproximava do fogo, apesar dos convites mais insistentes. Era preciso estimulá-lo para fazê-lo tomar o alimento indispensável; então ele escolhia sempre o que havia de mais comum e de mais grosseiro, deixando aos outros os melhores pedaços; se os tinha à sua disposição, era para dá-los aos empregados.
Aos quinze anos, sua atração pela leitura da Vida dos Santos e dos livros que tratam da vida espiritual tornou-se tão forte, que seus estudos da língua latina, que, aliás, ele já conhecia bastante bem, começaram a sofrer. Um único desígnio o ocupava inteiramente: conhecer a vontade de Deus sobre ele e os meios mais seguros de se santificar, de salvar sua alma. Seu tio, vendo-o relaxar em seus estudos, achou por bem insistir em sua importância para o sacerdócio, e proibiu a Bento a entrada de sua biblioteca, não lhe deixando senão os livros que julgava necessários. Mas como resistir à atração da graça? Deus queria fazer de seu servo algo muito diferente de um sábio eclesiástico. Mal abria Cícero ou Quinto Cúrcio, um grande peso oprimia seu coração: abria, ao contrário, um livro de piedade, sua alma era elevada e levada até Deus.
As Sagradas Escrituras, sobretudo, falavam ao seu coração, assim como os sermões do Pe. Lejeune. Ele os tinha diariamente em mãos, estudava-os com amor, sabia-os quase de cor. Dois discursos abalaram-no principalmente: foram os das penas do inferno e do pequeno número dos eleitos; ele tinha continuamente diante dos olhos da alma esta máxima: «Que serve ao homem ganhar o universo, se vier a perder sua alma!» Deus revelou-lhe primeiro sua vontade geral sobre ele; chamava-o a um renascimento absoluto, reservava-se o direito de lhe fazer conhecer suas vontades especiais após tê-lo preparado pela via das provações. Bento acreditou que a Providência o chamava para o recinto de algum mosteiro: um único, o da Trapa, recém-reformado, parecia-lhe capaz de saciar sua fome de mortificações. Mas seus pais resistiram a princípio a esse desígnio: objetaram-lhe que ele poderia muito bem servir a Deus e fazer sua salvação no estado eclesiástico quanto no claustro, e mesmo que faria mais bem trabalhando pela santificação dos outros, do q ue viver para si só, enterrando-se em um deserto. Em vão o santo jovem lhes representou que nenhuma consideração poderia dispensá-lo de obedecer à voz que o chamava: foi em vão que pleiteou sua causa, rezou, suplicou, não pôde ganhar nada. Enquanto esperava ter idade para dispor de sua pessoa, pois tinha apenas dezessete anos, fez, tanto quanto lhe era possível, o ensaio da vida penitente pela qual suspirava, uma espécie de aprendizado da Trapa. Mais de uma vez foi surpreendido dormindo no chão, mesmo na mais rigorosa estação. Ele não se limitava mais a dar alguns pedaços de pão aos pobres: quando podia escapar dos olhares, sua refeição inteira passava para as mãos de algum necessitado.
Obteve de seu tio a permissão de observar os jejuns de preceito. Ele não aparecia mais ao exterior senão para ir à igreja; suas comunhões tornadas mais frequentes, seus costumes angélicos, sua humilde docilidade, sua rara modéstia, seu perpétuo recolhimento, faziam-no ser chamado de jovem Santo e já lhe atraíam uma espécie de veneração pública. Uma doença epidêmica assolando o país, em 1766, Bento dedicou-se ao serviço dos doentes, com seu tio, que viu cair mártir da caridade. Compreendeu então, melhor do que nunca, quão frágil é a vida humana, e fortaleceu-se no desígnio de renunciar a tudo para adquirir os bens eternos. Aconselharam-no a renunciar à Trapa, que aterrorizava seus pais, por uma Cartuxa onde a vida seria suficientemente austera. Sempre flexível à voz de seus superiores, Bento seguiu esse conselho. Seu pai e sua mãe, embora esse sacrifício lhes custasse tanto quanto o de Abraão a Isaac, deram seu consentimento. Ele foi primeiro bater à porta da Cartuxa de Val-Sainte-Aldegonde, na diocese de Saint-Omer, que não pôde recebê-lo, por causa das grandes perdas que acabara de sofrer, e que diminuíam seus recursos. Partiu então a pé para a de Neuville, na diocese de Boulogne; lá, o R. P. prior, acreditando-o destinado ao coro e ao sacerdócio, disse-lhe para terminar seus estudos e aprender um pouco de dialética e os princípios do canto chão antes de se apresentar. Ele voltou ao fim de quatro meses: examinaram-no, acharam sua ciência quase suficiente, levaram sobretudo em conta a vivacidade de seu desejo, e admitiram-no ao número dos postulantes.
Nos primeiros momentos, o piedoso Anacoreta acreditou estar no auge de seus votos; ele ia viver enfim na cavidade da pedra, e provar as delícias de uma vida escondida em Jesus Cristo. Mas a essa rápida alegria sucedeu logo uma dessas tribulações interiores, que são como as passagens árduas e escarpadas, pelas quais devem passar as almas chamadas à mais sublime contemplação. Por outro lado, ele acreditava a vida dos Cartuxos doce demais para um pecador como ele: Deus, que tinha outros planos para ele, não fazia descer em sua alma essa graça simpática que forma o vínculo entre uma Ordem religiosa e aqueles que ela chama. Ele foi, portanto, obrigado a deixar a Cartuxa; mas mal de volta sob o teto paterno, ele o deixa de novo, apesar das orações e das lágrimas de seus pais; parte no coração do inverno, sem bagagem, sem nenhum cuidado com os meios de transporte, por países desconhecidos, por chuvas torrenciais; faz a pé sessenta léguas para ir apresentar-se à Trapa de Mortagne, na Normandia. Recusam-se a recebê-lo antes da idade de vinte e quatro anos; é preciso, portanto, baixar a cabeça e voltar para sua aldeia, onde chega com as roupas em farrapos e os pés dilacerados. Retornado aos Cartuxos, em 12 de agosto de 1769, aos vinte e um anos, unicamente para obedecer ao seu bispo que ele havia consultado a esse respeito, saiu de lá pelos mesmos motivos que a primeira vez. Voltou à Trapa de Mortagne, e, encontrando-a fechada para ele de novo, enquanto não tiver vinte e quatro anos, põe-se a caminho para a de Septfonds. Lá é admitido e veste o hábito de noviço em 11 de novembro.
É provavelmente ao dirigir-se a Septfonds que ele foi ajoelhar-se em Autun sobre o solo consagrado pelo sangue de São Sinforiano. Em 1861, a tradição da peregrinação que o bem-aventurado Labre fez a Autun vivia ainda na memória de alguns anciãos. Ele foi o último peregrino ilustre que visitou um túmulo tão célebre durante mais de quinze séculos.
A vocação de peregrino mendicante
Deus revela-lhe a sua verdadeira missão: viver no mundo como um peregrino sem abrigo, à imitação de Santo Aleixo, visitando os grandes santuários da Europa.
Que feliz surpresa para ele ver que a austeridade não era menor em Septfonds do que na Trapa! Desde o início, pareceu um religioso consumado. Mas ele ainda deveria passar uma terceira vez pelo crisol das tribulações interiores. Acusava-se de faltas que existiam apenas nos temores de uma consciência demasiado timorata; pensava não ter nenhuma contrição, porque não era, como alguns santos penitentes, favorecido por uma contrição sensível a ponto de chorar, gemer, soluçar. Em menos de seis meses, essas desolações de coração, somadas às austeridades e aos jejuns, tinham-no emagrecido e extenuado. Uma febre ardente declarou-se, e os médicos, consultados, julgaram-no demasiado fraco para sustentar o rigor da Regra. Mas não quiseram que ele partisse antes de estar restabelecido; fizeram-no, portanto, transportar para o hospital exterior, onde ele edificou a todos. Era, dizia um Irmão, uma conversa ininterrupta com Deus, favorecida pelo silêncio mais absoluto do enfermo. Aquele que estava encarregado de cuidar dele convidava frequentemente os seus confrades a visitá-lo, dizendo: «O jovem Labre é um Santo, vamos vê-lo». Durante a sua convalescença, não teve nada mais urgente do que empregar-se no cuidado dos outros doentes, dos quais a sua caridade o tornava o servo mais dedicado. Despediu-se dos bons Padres em 2 de julho de 1770; mas o que fará ele? para onde irá? Dirigiu estas perguntas a Nosso Senhor, que lhe colocou primeiro no pensamento dirigir-se aos santuários mais célebres, tais como os de Loreto e de Roma, com a intenção de melhor conhecer a sua vocação. Deixou a França e tomou o caminho de Loreto, pelo Piemonte, pedindo incessantemente ao Senhor ajuda e luz para conhecer e cumprir a Sua divina vontade. Deus revelou-lhe finalmente, por uma iluminação muito clara da inteligência, unida a uma inspiração sensível ao coração, que «esse divino querer era que ele caminhasse sobre os passos de Santo Aleixo, abandonando para sempre pátria, confortos, comodidades e tudo o que há de lisonjeiro no mundo, para levar um novo gênero de vida, a mais pobre, a mais penosa e a mais penitente; e isso não num deserto, não num claustro, mas no meio do mundo, visitando devotamente como peregrino os santuários mais renomados».
O santo Peregrino começou por Nossa Senhora de Loreto, em 6 de novembro de 1770; a sua segunda estação foi o túmulo de São Francisco de Assis, onde se fez inscrever na arquiconfraria dita do Santo Cordão. Desde a sua chegada a Roma, ficou profundamente tocado ao ver as imag ens da sua boa Mãe nas encruzilhadas e nas ruas; em todas as casas, a maior parte das famílias reservava-lhe um lugar de honra com uma lâmpada acesa diante dela. Detinha-se diante daquelas que eram mais veneradas, expressando as suas afeições por gestos piedosos, e, depois de as ter olhado mil vezes, voltava ainda e olhava-as com um novo fervor. Não sabia como retribuir a alegria que sentia por esse culto público e tão universal prestado a Maria.
Peregrinações e caridade
Ele percorre a Itália, a Espanha e a França, multiplicando os atos de caridade heroica e manifestando dons sobrenaturais de leitura dos corações.
Ele logo ficou a par de todas as cerimônias que ocorriam nas igrejas de Roma, de todas as devoções que ali se praticavam, e não perdeu nenhuma. Quando conheceu a Santa Escada, ia frequentemente subi-la de joelhos, lentamente e meditando a cada degrau as humilhações do Salvador que a havia pisado quando o arrastavam ao pretório. Perto do fim de maio de 1771, partiu para a cidade de Fabriano, perto da qual se venera o túmulo de São Romualdo. Sentiu tal devoção por São Tiago Maior que passou um dia inteiro em sua igreja, sempre de joelhos, sem mudar de lugar nem de posição, atento a todas as missas que se sucediam pela manhã. Durante as horas em que a igreja permanecia deserta, mantinha os braços em cruz, os olhos fixos no sacrário ou na estátua do Santo. Quando viu o sacristão fechar as portas, pediu-lhe que lhe permitisse passar a noite na igreja. Quando saía, muitos apontavam para ele e o chamavam de Santo. A admiração aumentou quando o viram dar aos pobres as poucas esmolas que recebia. Uma viúva, vendo-o passar sob uma chuva torrencial, convidou-o a entrar para se abrigar. Ele aceita, saúda-a segundo seu costume com estas palavras: «Louvados sejam Jesus e Maria!» E, por sua figura tão afável e piedosa, inspira a essa mulher uma grande confiança: ela lhe abre o coração, conta-lhe suas penas. Ela encontrou tal consolação nas palavras do santo Peregrino que quis proporcionar a mesma felicidade a uma jovem que, há mais de nove anos, guardava o leito, sofrendo muito de um escirro no estômago. Bento falou à enferma da felicidade de ser crucificado com Jesus Cristo, e lhe disse, entre outras palavras, que de seu leito ela passaria ao paraíso. Parecia à paciente ouvir o próprio Jesus Cristo; julgando-se indigna de ser visitada por Jesus Cristo em pessoa, teve a ideia de que era um Santo do céu enviado por Deus para consolá-la; e não era sem razão: pois o servo de Deus, aproveitando um momento em que se encontrava sozinho com ela, falou-lhe de um segredo de consciência relativo a alguma ilusão interior que ela tivera e que ainda não havia revelado ao seu diretor. Ela confessou depois que, sem uma luz sobrenatural, ele não teria podido penetrar seu interior como o fizera.
Contra seu costume, o servo de Deus aceitou o jantar que sua querida enferma e suas duas irmãs lhe ofereceram, pensando sem dúvida no exemplo do divino Modelo, que não recusava tomar parte nos festins quando via ali a ocasião favorável de servir aos convivas algum alimento espiritual. Mas mal tocava no que lhe serviam e, às instâncias que lhe eram feitas, respondia: «Preciso de pouco; o excedente só serve para preparar um pasto maior para os vermes». Continuava a falar das coisas de Deus e da salvação; mas temperava seus discursos espirituais com tanta naturalidade e graça que as três irmãs e a viúva ficavam comovidas até as lágrimas e esqueciam-se de comer para serem mais atentas às suas reflexões piedosas. Exclamou várias vezes: «Meu Deus, qual não é a vossa bondade de ter dado a estes alimentos a virtude de sustentar nossos corpos?»
A jovem enferma perguntou-lhe como devemos amar a Deus e quais são os sinais desse amor; ele respondeu: «Para amar a Deus convenientemente são necessários três corações em um só. O primeiro deve ser todo de fogo para com Deus e nos fazer pensar continuamente em Deus, falar habitualmente de Deus, agir constantemente por Deus, e sobretudo suportar com paciência o mal que lhe apraz nos enviar durante toda a duração de nossa vida. O segundo deve ser todo de carne para com o próximo e nos levar a ajudá-lo em suas necessidades temporais pelas esmolas, e mais ainda em suas necessidades espirituais pela instrução, o conselho, o exemplo e a oração; deve sobretudo enternecer-se pelos pecadores, e mais particularmente pelos inimigos, e pedir ao Senhor que os ilumine para levá-los à penitência; deve também estar cheio de uma piedosa compaixão pelas almas do purgatório, para que Jesus e Maria se dignem introduzi-las no lugar do repouso. O terceiro deve ser todo de bronze para consigo mesmo e fazer abominar toda sorte de sensualidade, resistir sem trégua ao amor de si, abjurar a vontade própria, castigar o corpo pelo jejum e pela abstinência, e domar todas as inclinações da natureza corrompida: pois quanto mais odiardes e mais maltratardes vossa carne, maior será vossa recompensa na outra vida.»
Antes de deixar essa família, Bento quis deixar uma marca de sua gratidão pelo acolhimento que recebera: pediu uma folha de papel, escreveu em latim uma oração dirigida a Nosso Senhor Jesus Cristo e, ao entregá-la às suas anfitriãs, assegurou-lhes que, se a rezassem com fé, veriam sua casa e as casas vizinhas preservadas do raio, do incêndio e dos terremotos. Foi o que aconteceu várias vezes, entre outras durante o terremoto de 1781.
Bento foi obrigado a subtrair-se pela fuga à estima que crescia por ele em toda a cidade. Inspirado sem dúvida por um espírito profético, acrescentou, ao agradecer ao sacristão pelas bondades que tiveram para com ele, que Deus se dignaria ele mesmo pagar sua dívida para com a igreja e o hospício. Algum tempo depois, recebia-se de improviso uma soma de cem escudos romanos, legada pelo testamento de uma dama alemã, desconhecida em Fabriano, e cujo herdeiro ignorava a existência da igreja de São Tiago e de seu hospício.
Bento nunca mais parou desde então ao passar por uma cidade onde «tinham feito caso dele como de algo bom». Suas diversas peregrinações no reino de Nápoles fizeram pressagiar que ele seria um ornamento da Igreja. Seus grandes exemplos de virtude fizeram tal impressão sobre os habitantes que, ainda hoje, após cerca de oitenta anos, a lembrança é viva no espírito de alguns anciãos. Chegado diante de uma prisão, de onde os detentos imploravam, através das grades de seus cárceres, a piedade dos transeuntes, ele parou e, vendo esses infelizes, teve uma grande compaixão. De repente, ajoelha-se, descobre-se, coloca seu chapéu no chão diante de si, deposita sobre suas bordas o crucifixo que desprende de seu peito, reza um instante olhando-o fixamente, depois entoa as Ladainhas da Virgem de Loreto com uma voz celestial que movia os ouvintes até o fundo da alma; imediatamente o dinheiro cai de todos os lados no chapéu do peregrino, ele recolhe essas ofertas, beija-as todo comovido como para agradecer ao público, levanta-se e vai distribuí-las aos pobres prisioneiros; ele repetiu esse ato de caridade todos os dias diante das igrejas.
Um habitante da cidade de Bari, que teve a felicidade de fazê-lo aceitar a hospitalidade em sua casa, pediu-lhe, antes de deixá-lo partir, que lhe desse ao menos algum conselho como lembrança: no mesmo instante o martelo do relógio veio anunciar que uma fração da vida humana havia decorrido: «Pois bem!» replicou o servo de Deus, «cada vez que ouvirdes este sino, lembrai-vos de que não sois senhores da hora seguinte, e pensai ao mesmo tempo na Paixão que quis sofrer Nosso Senhor para nos colocar em posse da eternidade». A pessoa a quem ele deixou essa piedosa máxima, embora na flor da idade e de uma saúde muito robusta, não tardou a passar ao repouso eterno, após uma curta doença.
Para ir à Espanha, passou por Moulins, em Bourbonnais, onde permaneceu alguns meses. Tendo um piedoso cristão lhe oferecido um abrigo, porque se estava no auge do inverno, ele recusou aceitar uma cama, não querendo absolutamente dormir senão no sótão, sobre um pouco de palha. Durante as longas noites de inverno, fazia uma leitura para a família; outras pessoas da vizinhança não tardaram a aumentar seu auditório, atraídas, como diziam, pela curiosidade de ver um Santo. Após a leitura, retirava-se para seu sótão para continuar a ler e a meditar; passava a maior parte de suas noites nesse piedoso exercício. Ouviram-no também flagelar-se duramente, e surpreenderam em sua palha um chicote de cordas armadas de pontas. Durante a Quaresma, passava às vezes dois ou três dias sem comer.
Se levavam o santo Viático aos enfermos, ele nunca deixava de acompanhá-lo. Viam-no comungar frequentemente na primeira missa; esse santo costume foi para ele uma ocasião de humilhação. O padre sacristão, vendo-o aproximar-se tão frequentemente da santa Mesa, julgou que era inconveniente para um leigo, tão jovem e tão mal vestido, receber tão familiarmente o Deus de toda majestade, e, tomado por um falso zelo, expulsou-o da mesa de comunhão. Bento suporta esse afronta com paciência e humildade: guarda silêncio e retira-se; nos dias seguintes, apresenta-se de novo à santa Mesa, pronto a receber um novo insulto, e suporta-o com a mesma abnegação, até que o pároco da paróquia, instruído do fato, reprimiu o zelo indiscreto do padre sacristão. Teve de sofrer bem outras perseguições que seria muito longo contar, e que só fizeram aumentar sua reputação de santidade. Atribuíam-lhe vários milagres, entre outros que pão e ervilhas se tinham multiplicado entre suas mãos enquanto fazia uma distribuição aos pobres na quinta-feira santa, e que um enfermo foi curado por suas orações. Se o seguirmos em mil santuários da Alsácia, da Lorena, da Suíça e da Alemanha, recolheremos as lendas mais maravilhosas. Diremos apenas as virtudes das quais ele dava por toda parte o exemplo.
Uma vida de despojamento absoluto
O santo vive em uma pobreza radical, alimentando-se de restos e alojando-se nas ruínas do Coliseu, enquanto pratica uma mortificação constante.
Jamais a pobreza e o renascimento dos religiosos mais rígidos se aproximaram do que o servo de Deus praticou por livre e espontânea vontade durante os últimos quinze anos de sua vida. De fato, os religiosos da mais estrita observância possuem ao menos uma pequena cela para habitação, alguma tábua ou esteira como leito, um hábito renovado em seu tempo como vestimenta; sua mesa é provida de alimentos grosseiros, é verdade, mas suficientemente abundantes e sem qualquer cuidado de sua parte; encontram ali para beber algum copo mantido limpo, fosse de madeira ou de barro; mas Bento privou-se de tudo isso e viveu em um despojamento geral que tem algo de inacreditável. Suas vestes não eram senão verdadeiros trapos, que bastavam apenas para cobrir a nudez de seu corpo, mas que não podiam de forma alguma defendê-lo da intempérie das estações. Seu calçado reduzia-se na maioria das vezes a chinelos ou pantufas furadas de todos os lados, como se fossem para deixar entrar a água e a lama. Sua cabeça não estava melhor coberta. Ele se despia, por vezes, ainda mais, para melhor imitar o Filho de Deus, que não temeu despojar-se da majestade divina: muitos o viram andar descalço pelos caminhos ou pelas ruas. Durante a maior parte de sua vida de peregrino, não apenas não teve domicílio, mas não quis sequer habitualmente colocar o pé sob o mesmo teto; não era necessário conformar-se literalmente ao exemplo daquele que disse: «As raposas têm suas tocas e as aves têm seus ninhos; mas o Filho do Homem não tem onde repousar a cabeça?»
Durante suas primeiras estadias em Roma, começou por abrigar-se ordinariamente perto do Quirinal, em um buraco de muro, alojamento mais adequado a um animal do que a um homem. Mudou depois, por deferência ao conselho de um eclesiástico, e alojou-se sob as abóbadas abertas e arruinadas do Coliseu, como o pardal solitário nos escombros, ou a andorinha nas ruínas. Mudava frequentemen te de a brigo, para evitar tudo o que pudesse assemelhar-se a uma posse. Em suas longas viagens, a terra lhe servia de leito; tomava por abrigo uma sebe ou uma muralha. Que diremos de sua pobreza no viver? Tomava de alimento o que era necessário para não morrer. Quanto à qualidade, seus alimentos de escolha eram ordinariamente o que podia encontrar de mais vil, coisas de refugo, mesmo esmagadas sob os pés e jogadas pelas janelas na rua ou sobre o esterco: folhas de couve amareladas, cascas de laranjas amargas, aparas de ervas murchas, frutas estragadas e podres. Com raras exceções, seu estômago não conhecia mais nem carne, nem iguarias de qualquer espécie; ele nunca bebia senão após essa singular refeição; sua bebida era, em viagem, a água das valas, e na cidade, a das fontes públicas, sem outro copo que não seus lábios, aplicados imediatamente ao orifício dos canos; o que foi causa de que, após sua morte, vissem várias dessas fontes sitiadas por uma multidão piedosa, porque as consideravam santificadas por esse grande servo de Deus.
Cristãos cheios de fé, sem serem retidos pela repugnância que seu exterior deveria inspirar, ambicionaram a vantagem de tê-lo à sua mesa: ele se defendia o quanto podia, alegando que sua condição de pobre não comportava tal distinção. Essa condição de pobre era para ele um motivo para se apresentar às distribuições diárias, menos para aproveitar a sopa que ali se dava, do que para fazer ato da profissão que havia voluntariamente abraçado. Tinha o costume de colocar-se por último e esperar que os outros fossem servidos; daí, acontecia que muitas vezes não recebia nada, ou pelo menos o que havia de pior; ele retornava tão contente como se tivesse obtido a melhor parte. Mais ainda, deixava-se facilmente tirar o que havia recebido, quando os distribuidores, encantados com sua reserva excessiva, faziam-no passar antes dos outros e lhe davam uma larga parte. É com a mesma indiferença que acolhia as ofertas de esmolas. Frequentemente não respondia às pessoas que o chamavam para lhe dar algo, porque não percebia, estando todo absorvido em Deus. Uma vez, em São Sisto e em São Domingos, estava em meditação; um padre aproxima-se dele e coloca uma esmola em sua mão. Longe de ser distraído por esse ato caridoso, ele sequer percebeu. Algumas vezes, benfeitores o forçaram a receber o que não queria; ele aceitava para não os entristecer ou por respeito ao seu caráter; mas mal tinham desaparecido, ele a dava a outros. Todavia, não era suficiente para ele desprezar toda propriedade, mesmo a mais legítima e a mais necessária, ele tinha uma espécie de horror. Pode-se dizer que, ao contrário dos outros homens, ele era o inimigo jurado do dinheiro e não queria receber a menor moeda desse metal, que parecia lhe queimar a mão. Muitas vezes, por erro, colocaram-lhe na mão alguma moeda desse gênero, como dissemos: assim que percebia, corria atrás da pessoa para restituí-la. Eis como ele entendia a máxima: «Qualquer um de vós que não renuncia a tudo o que possui não pode ser meu discípulo». É preciso, depois disso, falar de sua mortificação? Pode-se imaginar uma vida mais dura e mais mortificada? Nas vigílias e outros dias de jejum, ele não aparecia à porta dos conventos; propusera-se nesses dias imitar o exemplo dos primeiros fiéis, comendo apenas uma vez ao dia, e pode-se dizer que ele os superava frequentemente, pois aconteceu mais de uma vez de tomar por toda refeição, ao fim do dia, apenas um pouco de pão molhado na água da fonte pública. As quartas e sábados eram frequentemente, e as sextas-feiras quase sempre, dias de jejum absoluto para ele.
Percorrer uma multidão de regiões diversas, de cidades célebres, sem abrir os olhos, ou pelo menos sem olhar para nada, isso parece quase impossível. Eis, contudo, o que o servo de Deus, por um prodígio da graça, praticou da maneira mais absoluta em todas as suas peregrinações. Jamais também prestou o ouvido voluntariamente a qualquer discurso vão e curioso, ou privado de edificação; jamais concedeu ao sentido da audição o prazer de escutar qualquer canto ou qualquer som de instrumento. Jamais conheceu os aromas que lisonjeiam o olfato; mas, ao contrário, se lhe acontecia ser molestado por odores desagradáveis, não fazia nada para afastá-los ou para se livrar deles; essa era sua sensualidade. É impossível impor uma maior contenção à sua língua do que ele fazia. Chegara a nunca falar primeiro a quem quer que fosse, a não ser por pura necessidade ou por motivo de caridade, e a não responder na maioria das vezes senão por um sinal de cabeça. Cumpria ao pé da letra o conselho do Espírito Santo: «Coloque portas e ferrolhos em sua boca». No meio do tumulto do mundo, seu silêncio era perpétuo, perpétuo seu diálogo com Deus. Meses inteiros passavam sem que proferisse uma palavra; de modo que ele mereceria tão bem a qualificação de silenciário quanto o Santo conhecido por esse nome.
Quanto ao sentido do tato espalhado por todo o corpo, era para ele o grande meio de penitências de todos os instantes. «Ele trazia em seus membros a mortificação de Jesus Cristo em todo tempo e em todo lugar», e vivia apenas para crucificar sua carne com todas as suas concupiscências; soube fazer para si instrumentos de maceração, que não tinham o inconveniente de expô-lo à estima, e lhe procuravam a vantagem de uma penitência não interrompida. O frio, o calor, a umidade, os ventos, toda a natureza em uma palavra, todas as incomodidades, todas as circunstâncias da vida, forneciam-lhe os meios de imolar sua carne ao Senhor, como Jefté, sua filha única, unindo esse sacrifício ao de seu Salvador. Ele tinha, além disso, sobre sua carne, como um cilício vivo que o dilacerava sem cessar, como São Tomás de Cantuária, chanceler da Inglaterra, de quem o historiador diz: «Após ter sofrido a morte do martírio, encontraram seu cilício tão cheio de insetos pediculosos, que julgaram esse martírio anterior, no meio do luxo e da moleza de uma corte, muito mais insuportável que o último». Não apenas não buscava se livrar desses hóspedes incômodos, mas ele tinha absolutamente querido esse tormento tão aflitivo e tão humilhante; apenas, por espírito de caridade, tomava todas as precauções para poupar aos outros o desgosto que ele poderia lhes causar nisso. Ele vivia separado dos próprios pobres e nunca se aproximava deles. Aliás, o odor de sua santidade e o esplendor de sua alma faziam frequentemente desaparecer o desgosto que sua visão deveria inspirar, e sua pele, quando lavaram seu corpo após sua morte, longe de oferecer qualquer mancha, qualquer vestígio de arranhão, pareceu tão limpa quanto a de uma criança que acaba de nascer. O guardião do hospício atestou que não percebeu nenhum traço no leito que ele ocupava, e a mesma coisa foi constatada no leito onde ele morreu; que digo eu? seus trapos, cheios dessa verminose, tornaram-se um tesouro que milhares de pessoas disputaram!
Vida mística e virtudes angélicas
Apesar de sua aparência miserável, ele brilha por sua modéstia, seu silêncio perpétuo e uma união contemplativa intensa com Deus, particularmente diante da Eucaristia.
Entre os espinhos desta mortificação, desenvolvia-se em todo o seu esplendor a bela flor da continência e da modéstia. Bento fugia, com o mesmo calafrio que se sente ao ver uma serpente, de tudo o que pudesse causar a menor ofensa a ela. "Se uma mulher me tocasse", dizia ele, "imediatamente eu arrancaria a pele que ela tivesse tocado". Ele mantinha constantemente fechada a porta de seus sentidos, pela qual a serpente infernal poderia ter penetrado no jardim de sua alma: caminhava pelas ruas como se estivesse na igreja. Sua postura era de êxtase, e nunca lhe aconteceu de virar a cabeça ou deixar seus olhos se perderem. Fugia da conversa com mulheres com tanto cuidado quanto de sua aproximação ou visão; não conversava com nenhuma, a menos que fosse impelido por uma necessidade positiva.
A menor palavra obscena ou licenciosa que atingisse seus ouvidos era um estrondo de trovão que o fazia estremecer e tremer. Um de seus confessores, pressionando-o com perguntas para saber por que ele se proibia tão estritamente o uso do vinho, obrigou-o a responder, suspirando, que queria, por essa privação, embotar o aguilhão da carne e colocar em seu corpo o freio que o impedisse de empacar. Resposta bem conforme a sentença da Escritura: "O vinho e as mulheres fazem apostatar os sábios"; e, no entanto, quem acreditaria? Este homem tão penitente, tão circunspecto, tão delicado de consciência, teve de lutar contra os mais violentos assaltos, como os Jerônimos, os Antônios, os Pedros de Alcântara, para defender uma virtude que lhe era tão cara. Mal começava a provar o sono, era assaltado pelas tentações mais violentas. Foi frequentemente obrigado a rolar pelo chão com coragem, como outrora seu patrono, implorando o socorro divino, invocando a Virgem imaculada, fazendo sobre si numerosos sinais da cruz, batendo no peito e imaginando a cruz do Salvador: não cessava de combater até ter alcançado uma vitória completa. Seus confessores asseguraram que, em todo o curso de sua vida, não descobriram a menor falha nem a menor mancha; por isso, muitas pessoas o designavam apenas como um anjo terrestre, um santo Luís de Gonzaga. Eis como, com o auxílio da graça, Bento se tornara tão mestre do apetite da alma que chamamos de concupiscível, porque nos leva a desejar e a buscar o bem sensível, que nele não surgia, por assim dizer, mais nenhum movimento deliberado. Quanto ao outro apetite, que compõe também a parte sensitiva da alma, quero dizer o irascível, que nos leva a fugir do mal sensível e a nos defender dele, estava realmente morto nele. Um de seus confessores dizia que, à força de exercício, ele havia adquirido tal império sobre a irascibilidade que, em sua opinião, tornara-se a mansidão e a afabilidade em pessoa, e não hesitava em compará-lo e igualá-lo, sob esse aspecto, a São Boaventura e a São Francisco de Sales: nada sendo capaz de alterar a santa paz de sua alma, nem a serenidade de seu rosto.
Certa noite, ao sair de Nossa Senhora dos Montes, esbarrou na escuridão com um jovem que, para se vingar, desferiu-lhe uma paulada e, depois, uma bofetada. Bento, como de costume, recebeu ambos sem lhe pedir a razão. Caminhando outra vez, na rua do Corso, a passo rápido, foi carregado de injúrias e zombaria por alguns transeuntes. Em vez de se apressar, diminuiu o passo para desfrutar por mais tempo da felicidade de ser insultado. E para passar à parte superior da alma, sua vontade era escrava da obediência. Ele era, como aconselha São Pedro, submisso a toda criatura por amor a Deus, imitando Aquele que se fez obediente até a morte. Foi por obediência que ele usou algumas vezes a cama que lhe era preparada, que se aproximou do fogo no inverno pelo menos por alguns instantes, que bebeu alguns goles de vinho, que recebeu esmolas das quais não precisava para o mesmo dia, que aceitou alguns raros convites para fazer uma refeição real e provar os pratos que lhe eram servidos. Acreditamos ter citado aqui os atos de submissão que mais lhe custavam. Ele tinha no espírito pensamentos tão baixos de si mesmo que é impossível, segundo o abade Marconi, seu confessor, imaginar quem poderia ter um pensamento mais baixo de si, e ele compara sua humildade a um mar tão profundo que não há sonda capaz de medir o fundo. Dirigia continuamente a Deus a súplica de Santo Agostinho: "S enhor, fazei que eu Vos conheça e que eu me conheça, Vós para Vos amar, eu para me desprezar". Uma de suas maiores virtudes foi, sem dúvida, o cuidado que tinha de esconder de todos os olhos suas virtudes e o que se passava entre Deus e ele. Não colocava menos aplicação em esconder sua condição e sua origem, desejando passar pelo mais vil e o último dos homens. É por isso que evitava seus compatriotas à medida que aprendia melhor a língua italiana e que escolhia ordinariamente seus confessores entre os padres dessa nação. Mas, apesar de seus esforços, era frequentemente traído pela delicadeza de seus traços, pela graça de sua fisionomia, pela urbanidade de sua linguagem e por não sei que nobreza de maneiras que tinha sua fonte na polidez de sua educação, e mais ainda no perfeito equilíbrio de sua alma, sempre senhora de seus movimentos. Embora, desde sua juventude, lesse a Sagrada Escritura em latim, e que mais de um de seus admiradores estivesse persuadido de que Deus lhe dera uma inteligência particular, tanto ele citava os textos a propósito, tanto os aplicava com justeza e precisão, contudo ele fazia um dever constante de assistir à explicação elementar da doutrina cristã como um ignorante. Seguia o catecismo que se fazia no Coliseu para a classe ínfima e as crianças mais abandonadas. A virtude de Jesus Cristo tem um perfume que é difícil de conter, sempre escapa algo: daí aconteceu que, frequentemente, Bento foi exposto a ouvir seu elogio e a receber marcas de consideração. Perturbava-se facilmente com isso; era para ele um verdadeiro desgosto ver-se objeto de algum respeito: uma palavra de louvor o fazia tremer, um testemunho de honra o abalava até o fundo da alma.
Estando penetrado deste oráculo de que Deus encontra manchas até nos puros espíritos que cercam seu trono, e vendo-se tão inferior aos anjos do céu, encontrava sempre imperfeições em si mesmo, e as acusava no tribunal da penitência com a mesma contrição como se se tratasse de faltas enormes. Não se deve, portanto, estranhar se seus confessores foram unânimes em assegurar que ele observava minuciosamente os preceitos de Deus e da Igreja; que nunca cometeu uma falta, mesmo venial, de propósito deliberado; que não parecia sequer sujeito às aberrações voluntárias de desejo e de pensamento; de modo que suas confissões não ofereciam matéria suficiente para a absolvição.
Não é preciso dizer com que atenção e que fervor o Bem-aventurado se desincumbia de todas as suas orações diárias. Recitava-as, qualquer que fosse o número, lentamente, pausadamente, articulando cada sílaba e pesando o sentido de cada palavra. Muitas pessoas o chamavam de o Homem da oração.
A maneira como ele recitava o ofício divino fazia dele uma verdadeira meditação: após a leitura de um salmo ou de uma lição, depositava o livro para dar curso aos pensamentos e aos sentimentos que o Espírito Santo suscitava nele, mantendo os olhos dirigidos para o céu ou para a imagem da Virgem em Nossa Senhora dos Montes. Quanto à oração mental, logo alcançou esse grau superior a todo método, que se chama contemplação. Seu espírito era logo como que seguido pelo espírito de Deus, e seu coração se abrasava de santas afeições. Uma piedosa viúva o havia julgado bem quando conta que, ao vê-lo com o olhar fixo para o céu, índice do olhar interior, dizia: "Oh! feliz mortal, quem sabe o que tu vês?" e imaginava que Deus se comprazia em fazê-lo provar as delícias do perfeito amor. Daí crescia nele a cada dia a aversão por tudo o que não é Deus, a ponto de olhar, com São Paulo, todas as grandezas e os prazeres do mundo como um vil e miserável lodo, digno no máximo de ser pisado aos pés. A duração de suas orações era tal que se pode dizer, sem exagero, que ele passou a maior parte de seus últimos quinze anos em contemplação. Frequentemente não se ousava interrompê-lo com o barulho das portas ou passando muito perto dele nas igrejas: muitos vinham de propósito para se animar com seu exemplo e se excitar à meditação; pois, dizia-se, nunca se viu rezar dessa maneira, e, para ter uma ideia, é preciso tê-lo visto: os anjos não se mantêm de outra forma diante do trono de Deus! Quantos sentiam seu coração se enternecer ao olhá-lo e as lágrimas escaparem involuntariamente de seus olhos! quantos se recomendavam interiormente à sua intercessão, como se faz à dos bem-aventurados que já gozam da visão de todas as coisas em Deus! o que é bem o mais alto grau de estima que se pode ter de um homem ainda viajante sobre a terra. É, contudo, o que fazia um santo padre de oitenta anos. Um futuro bispo se colocava o mais perto possível do pobre, sem ser percebido, e experimentava dessa simples vizinhança tal emoção que sua oração se tornava mais fervorosa.
Para se anunciar ostensivamente à face do mundo como servo de Maria, Bento adotou o costume de carregar o terço suspenso ao pescoço e não o deixou mais até a morte. Nas estradas, nas ruas, na igreja, em peregrinação, de noite como de dia, podia-se reconhecê-lo por esse emblema. Era sua decoração de escolha, aquela que ele exibia com prazer e à qual atribuía mais valor do que qualquer grande da terra jamais atribuiu às insígnias de suas ordens. A confiança da qual seu coração transbordava para com essa boa mãe escapava algumas vezes no meio de suas orações: repetia em meia voz esta invocação: Minha Mãe! Ó Maria! Minha Mãe! com um acento tão expressivo e tão pronunciado que, evidentemente, ele fazia esforço para não soltar um grande grito. Sua devoção para com a santa Eucaristia faz com que seja classificado entre os adoradores mais célebres do Santíssimo Sacramento: Santa Rosa de Lima, São Luís Beltrão, São Tomás de Aquino, Santa Joana de Chantal, etc. Ele experimentava tal alegria na presença de Jesus Cristo que ela transpirava para fora de uma maneira que tinha algo de mais que humano, e que se admirava em seus lábios um sorriso que tinha mais do anjo que do homem. É o que fazia dizer a muitos que ele via Jesus com os olhos do corpo.
Um de seus confessores, tendo-o obrigado a lhe dizer o que lhe causava mais impressão na vida do Salvador, respondeu que era a abjeção à qual esse divino Mestre descera nas últimas horas de sua vida. Essa lembrança, despertada pelas interrogações do confessor, causou-lhe um movimento de dor tão amarga que este a compara à da mãe mais terna, que veria um filho inocente e querido massacrado sob seus olhos com barbárie, e pouco faltou para que, ao responder, o coração lhe faltasse; ele chorava sobre seu Bem-Amado, seu Amigo, e sofria verdadeiramente com ele; não teria sofrido mais se o tivessem pregado ele mesmo na cruz. Nunca deixava, a cada manhã, de se colocar nas chagas do Salvador, imaginando as de seus membros como os buracos da pedra e a do lado como a gruta do rochedo onde se retira a pomba.
Quando Bento tinha assim sua alma unida a Deus, uma luz celestial refulgia de Deus sobre ela, e frequentemente dela sobre o corpo, por uma graça especial que foi concedida a muitos Santos: seu rosto brilhava com um esplendor sobrenatural, e seu corpo, levado pelo impulso da alma, elevando-se sem, contudo, perder inteiramente o contato com a terra, tomava uma posição que não se podia explicar de uma maneira natural.
Dons de profecia e de bilocação
Perto do fim de sua vida, ele manifestou dons de bilocação e previu com precisão sua morte, bem como as futuras convulsões da Revolução Francesa.
Não se citam fatos suficientemente constatados para afirmar que o servo de Deus teve durante sua vida o dom dos milagres, embora Deus tenha se comprazido em atender ostensivamente às suas orações. No caso de o benefício concedido ter algo de milagroso, é provável que Bento não tivesse conhecimento disso: sua humildade teria sofrido demais; mas ele tinha, especialmente perto do fim de sua vida, o dom de ler o fundo das consciências. Por isso, muitas pessoas o evitavam, com medo de que ele visse alguma mancha em suas almas. Um dia, ele se encontra no caminho de um jovem devasso, que ele não conhecia; ele aproveita o momento para se aproximar dele e, com o tom da maior doçura, diz-lhe: «Meu filho, você está na desgraça de nosso Deus, vá fazer uma boa confissão, porque sua morte está próxima». O jovem começou a rir desse aviso e zombou daquele que o dava; mas o infeliz morreu pouco depois, e morreu impenitente. Outra advertência do mesmo gênero teve melhor sucesso para um homem de certa idade; Bento, tendo-o abordado, disse-lhe: «Meu irmão, expulse o pensamento que você tem, é uma tentação do demônio». Diante dessa exortação imprevista, o culpado ficou estupefato e confuso, e expulsou de seu coração o projeto criminoso que ali nutria de abandonar sua esposa. Bento foi também objeto de um favor que Deus parece ter reservado para nossos tempos, a fim de melhor confundir a incredulidade por este milagre, o mais inexplicável de todos. Viu-se frequentemente em vários lugares diferentes, exatamente à mesma hora.
Assim, enquanto estava encerrado no hospício dos pobres, onde dormia nos últimos anos de sua vida, e de onde não se podia ausentar, ele foi visto e observado por várias testemunhas, em adoração em seu porte habitual e extático, em diferentes horas da noite, e até depois da meia-noite, diante do Santíssimo Sacramento exposto para a adoração perpétua. Enquanto estava encerrado no mesmo hospício, viram-no na noite de Natal, em 1782, assistir, na igreja de Nossa Senhora dos Montes, às Matinas, à missa da noite e a todo o resto da cerimônia, até o beijo dos pés do santo Menino Jesus. Admitido na intimidade do Rei eterno, era muito difícil que ele não tivesse parte em algum de seus segredos, tal como o conhecimento do futuro. Ele conheceu de antemão sua morte próxima, o local de sua sepultura, as homenagens que lhe seriam prestadas após sua morte, os religiosos que deveriam trabalhar nisso: ele conheceu as desgraças que deveriam cair sobre a França, em 93, e fez uma multidão de outras predições que seria muito longo relatar, e que foram justificadas pelo evento.
Morte e glorificação imediata
Ele morre em Roma em 16 de abril de 1783; a multidão aclama-o imediatamente como um santo, e milagres irrompem desde o seu funeral.
No entanto, uma dor profunda devorava o coração de Labre, e deveria apressar o seu fim. Este amante de Deus, tão insensível às suas próprias penas, sentia todas as injúrias que o século XVIII vomitava contra o seu divino Amigo. Jamais os homens tinham parecido mais obstinados contra Deus. Todos os dias a massa de livros ímpios, de blasfêmias, de apostasias ia aumentando. O horizonte deste infeliz século carregava-se de tantas impiedades, que a ira divina, desafiada há sessenta anos, estava finalmente prestes a explodir numa tempestade terrível. Labre, pelas suas austeridades, pelas suas orações, retinha o braço de Deus tanto quanto podia; mas este braço vingador tornava-se cada vez mais pesado, e as forças de Labre diminuíam. Cada golpe que atingia Deus, atingia-o também. Ele experimentava essa terrível tortura de ver o seu Pai, o seu Amigo, o seu Esposo maltratado, pisoteado; e por quem? pelos seus irmãos, por irmãos ingratos, mas que ele amava, porque eram como ele os filhos de um mesmo Pai, e porque os via todos banhados no sangue que a sua salvação tinha custado. Ele teria querido vingar esta divina Vítima, mas os carrascos também ocupavam um lugar importante no seu coração, e ele só sabia rezar por eles, em vez de os amaldiçoar. Nestes dilaceramentos o seu coração partia-se. Quantas vezes não o confessou ao Sr. Marconi? «Meu Pai», dizia ele, «esta dor mata-me».
Esta morte preciosa não foi revelada apenas ao nosso Santo. Uma religiosa de santa vida soube «que uma flor estava prestes a ser colhida no jardim de D. Paul Mancini». Ela queria falar do hospício onde o Bem-aventurado passava as noites. Por outro lado, o filho dos esposos Sari, que esperavam o servo de Deus em Loreto, para a sua peregrinação anual, repetiu-lhes mais de uma vez: «Não o esperem, Bento morreu; Bento foi para o paraíso, é o coração que me diz».
Na sexta-feira da paixão, ele confessou-se pela última vez: «Mal se ajoelhou, começou a chorar», diz o seu confessor; «dois rios de lágrimas caíam dos seus olhos pacificamente e sem suspiros nem soluços. Como de costume, não encontrei matéria para absolvição. Vi, além disso, que, desde a sua última confissão, a mais leve tentação não tinha perturbado o seu interior, todo em paz, sereno e tranquilo. Isto mostrava-me que ele tinha chegado ao meio-dia da bela luz. Tal astro já não pertence à terra: é no céu, é na glória eterna que ele deve brilhar». Com efeito, na quarta-feira santa, 16 de abril de 1783, Bento fez, como de costume, uma longa e fervorosa oração, quando de manhã, por volta das oito horas, foi surpreendido por um desfalecimento mortal. Viram-no prostrado, como privado de sentidos e de força, nos degraus exteriores de Nossa Senhora dos Montes, a sua igreja de predileção. Apressaram-se a socorrê-lo, e deram-lhe um copo de água, pois ele tinha pedido. Ele tomou-o na mão, ofereceu-o devotamente ao Senhor, com suspiros inflamados, os olhos levantados ao céu; depois, tendo bebido, elevou de novo as suas pálpebras moribundas e as suas duas mãos, rendendo graças como se tivesse recebido o maior alívio. Este traço edificante fez verter lágrimas à testemunha que o contou. A sua fraqueza era tão grande que não o podiam levantar; várias pessoas ofereceram-lhe caridosamente a sua casa para o receber; ele agradeceu a todas com humildade. Francisco Zaccarelli, açougueiro no Monti, em frente ao quartel dos soldados cors os, a pouca distânc ia da igreja, apresentou-se. Era um homem de bem, afeiçoado ao servo de Deus. Disse-lhe: «Bento, você está mal, é preciso cuidar de si; quer vir para casa?». O moribundo abriu os olhos, fixou-os em Francisco e respondeu: «Em sua casa? sim, quero ir». Transportaram-no imediatamente e depositaram-no, todo vestido, sobre uma cama, dizendo-lhe que se deixasse tratar por obediência. Tentaram reanimá-lo fazendo-o tomar alguma coisa; mas ele perdeu logo os sentidos; e à noite, enquanto se recitavam as Ladainhas perto dele, a estas palavras: *Sancta Maria, ora pro nobis*, o seu rosto tomou a brancura do leite, ele cessou de respirar. Eis os dois únicos sinais pelos quais se percebeu que ele acabava de adormecer no Senhor. À idade de trinta e cinco anos e vinte e um dias, como acabamos de dizer, a sua alma voou para o seio de Deus, para junto de Maria, a sua boa Mãe, no momento em que se invocava para ele o seu santo Nome, que ele tinha tido continuamente nos lábios durante a sua vida; e, por um encontro não menos feliz, os sinos de Santa Maria Maior pareciam também invocar este santo Nome entre o céu e a terra, dando o sinal do *Salve Regina*, ordenado pelo Santo Padre para implorar a poderosa Mãe de Deus nas necessidades da Igreja. O Pe. Ângelo fechou a boca e os olhos daquele que teria sido digno de receber este serviço da mão de um anjo. Foi então que, na rua, as crianças, impelidas por uma força superior, fizeram ouvir: «O Santo morreu! o Santo morreu!». Recomeçaram na manhã seguinte na mesma rua e na praça de Nossa Senhora dos Montes. Aos gritos das crianças não tardaram a juntar-se as vozes e os atos do povo inteiro em Roma. Todos diziam com o confessor do defunto: «Feliz penitência, que, sem dúvida, o levou num voo à glória eterna!». À notícia de que tinha morrido um pobre de santa vida, uns acrescentavam: «Sem dúvida alguma, é o pobre das Quarenta Horas!» (nome que lhe davam porque o viam prostrado, com o rosto de um querubim, diante do Santíssimo Sacramento exposto para as Quarenta Horas). Outros: «São Aleixo morreu! o santo pobre morreu!». Todo o mundo acorria para a morada de Zaccarelli, para ver o novo Santo: por volta do meio-dia, o concurso aumentou a tal ponto que foram obrigados a colocar soldados à porta exterior e à da câmara, para conter a multidão, onde se confundiam burgueses, militares, nobres, religiosos e padres. Roma inteira, impelida por um movimento do alto, veio ajoelhar-se nesta câmara que se tornou um santuário. Este invólucro terrestre, que a alma do Bem-aventurado tinha tratado como um velho saco rasgado, Deus quis que fosse já honrado, enquanto esperava que se transformasse no dia da ressurreição num vestuário de glória. Faziam tocar terços, beijavam com respeito os pés e as mãos, não se podiam saciar de ver este glorioso cadáver, que não estava frio, e estas carnes que conservavam a sua elasticidade. Vários testemunharam que tinham querido recitar o *De profundis*, e que, por uma repugnância insuperável, tinham-no substituído ou terminado com o *Gloria Patri*, em vez do *Requiem*. A veneração e a multidão redobraram quando se expôs o santo Pobre na igreja de Nossa Senhora dos Montes. Apesar da vigilância para impedir os piedosos furtos, não se conseguiu preveni-los todos, e, para remediar as irreverências inevitáveis, foi preciso não só transportar o Santíssimo Sacramento para o oratório do colégio vizinho, mas diferir a exposição solene das Quarenta Horas, que tiveram lugar desta vez na igreja de São Quirico. Assim, Roma inteira foi testemunha do cumprimento da predição que Bento tinha feito oito meses antes, com lágrimas nos olhos e soluçando, ao seu confessor: «que se apressariam em disputar para o venerar; que lhe prestariam honras extraordinárias; que o Santíssimo Sacramento seria retirado da igreja e que, em seu lugar, uma multidão de pessoas viria venerar o próprio».
Os seus funerais foram uma espécie de triunfo, não só por causa da pompa terrestre com que se rodeava o Pobre, mas ainda por um reflexo da glória de que a sua alma gozava no céu, e que Deus queria fazer reluzir sobre o seu caixão; quero dizer que os milagres tinham começado. Assim, no trajeto através da igreja, que continuava a estar cheia de gente, um homem paralítico tocou o caixão e foi completamente curado. A multidão começou a gritar: Graça! Milagre! E foi ao ruído destas aclamações que os preciosos despojos foram postos numa sepultura distinta, na igreja de Nossa Senhora dos Montes. Colocou-se no caixão um ato autêntico contendo este magnífico elogio:
«Bento José deu em todos os lugares brilhantes exemplos de virtudes cristãs; brilhou pela pobreza evangélica praticada na última perfeição, vivendo miseravelmente de esmolas espontaneamente oferecidas, das quais guardava uma pequena parte para si, dando o resto aos pobres. Edificou, pela sua profunda humildade, o seu altíssimo desprezo do mundo e de si mesmo; pelos rigores da penitência, a sua contínua oração; deu o edificante exemplo da permanência quotidiana nas igrejas da cidade, desde o nascer até ao pôr do sol. Insigne no exercício de todas as outras virtudes, amável e querido por todos, apesar dos seus repugnantes trapos, esquecia-se de si mesmo e aplicava-se unicamente a agradar a Deus». A mesma laje sobre a qual se tinha ajoelhado tantas vezes durante a sua vida, cobriu o seu túmulo.
Reconhecimento da Igreja e relíquias
Beatificado por Pio IX em 1860, seu culto se espalhou mundialmente e suas relíquias são honradas em Roma, Arras e Amiens.
A devoção a este novo Santo, suas relíquias e suas imagens logo se espalharam por toda a Igreja. Pio VI iniciou os primeiros atos jurídicos tendentes à sua beatificação; Pio VII deu-lhes continuidade, Gregório XVI os concluiu, e P io IX proclamou o glorioso resultado em 1860.
Dom Parisis, bispo de Arras, trouxe de Roma, naquele mesmo ano, uma parte da cabeça do Bem-aventurado, que colocou em sua catedral. Festas esplêndidas foram celebradas nos dias 15, 16 e 17 de julho, por ocasião da beatificação e da recepção desta insigne relíquia.
Conservam-se algumas de suas relíquias no Sagrado Coração e nas Ursulinas de Amiens, bem como na igreja de Le Forêt, onde uma transladação solene ocorreu em 15 de maio de 1864. Mostra-se em Lihons, na diocese de Amiens, a casa onde ele recebeu hospitalidade quando foi visitar as relíquias do priorado. Entre Monchy-l'Agache e Douvieux, uma cruz leva o nome de Bento Labre, porque, segundo a tradição, este santo personagem ali permaneceu por muito tempo em oração, enquanto fazia uma peregrinação a Nossa Senhora de Liesse e à igreja de São Quintino.
Extraído de sua vida, escrita pelo R. P. Desonyers, missionário da Companhia do Preciosíssimo Sangue.
Iconografia
Sinais e atributos
Entidades
Rede do relato
Os nomes, lugares e conceitos mais presentes na ficha, ponderados por sua centralidade no texto.
O sobrenatural em sua vida
Os milagres de Bento José Labre
Perguntas frequentes sobre Bento José Labre
Quem foi Bento José Labre?
Nascido em Artois em 1748, Bento José Labre renuncia à vida monástica para se tornar um peregrino mendicante, percorrendo os santuários da Europa em total despojamento. Apelidado de 'Santo Aleixo de seu século', passa seus dias em adoração diante do Santíssimo Sacramento, particularmente em Roma. Morre em 1783 em odor de santidade, desencadeando um fervor popular imediato.
De que Bento José Labre é santo padroeiro?
Padroados de Bento José Labre: peregrinos, mendigos e pessoas em situação de rua.
Para que se reza a Bento José Labre?
Reza-se a Bento José Labre por: proteção contra raios, proteção contra incêndios e proteção contra terremotos.
Como reconhecer Bento José Labre na arte cristã?
Na iconografia, Bento José Labre é reconhecível por: farrapos, terço no pescoço, alforje de peregrino, crucifixo e livro de orações.
Quais milagres são atribuídos a Bento José Labre?
5 milagres são atribuídos a este santo, notadamente: Multiplicação / provisão, Cura, Levitação / bilocação e Profecia / ciência infusa.
Quais santos foram contemporâneos de Bento José Labre?
Entre seus contemporâneos figuram: Venerável Inês de Jesus, Beata Maria Ana de Jesus, Santo Afonso Maria de Ligório e Santa Maria Francisca das Cinco Chagas de Jesus.
Quando Bento José Labre morreu?
Bento José Labre morreu por volta de 1800.
Quais são os outros nomes de Bento José Labre?
Outras formas do nome: Le pauvre des Quarante-Heures e Le nouveau Saint Alexis.
Quem são os familiares de Bento José Labre?
Familiares de Bento José Labre: Jean-Baptiste Labre (pai), Anne-Barbe Grandsire (mãe), François-Joseph Labre (tio e padrinho) e Jacques-Joseph Vincent (tio materno).
Anexos & entidades relacionadas
Dados estruturados para exploração: eventos, milagres, citações, lugares, atributos, padroados e entidades importantes citadas no texto.
Eventos marcantes
- Nascimento em Amettes em 26 de março de 1748
- Educação com seu tio, pároco de Erin
- Tentativas infrutíferas de entrar na Ordem Trapista e na Cartuxa
- Vocação de peregrino mendicante seguindo os passos de Santo Aleixo
- Inúmeras peregrinações a Loreto, Roma e por toda a Europa
- Morte em Roma na casa do açougueiro Zaccarelli
Citações
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Para amar a Deus convenientemente, são necessários três corações em um só: um de fogo para Deus, um de carne para o próximo, um de bronze para si mesmo.
Conversa com uma família em Fabriano