São Marcelino, Papa e Mártir
Papa romano sob o reinado de Diocleciano, Marcelino fraquejou inicialmente diante da perseguição ao oferecer incenso aos ídolos. Tomado pelo remorso, confessou sua culpa durante o sínodo de Sinuesse antes de proclamar corajosamente sua fé diante do imperador. Morreu decapitado em 304, redimindo sua queda pelo martírio.
Seus contemporâneos
Figuras e referências situadas em torno do período normalizado desta ficha.
Leitura guiada
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SÃO MARCELINO, PAPA E MÁRTIR
Cronologia e queda inicial
Marcelino, papa de origem romana, exerceu seu pontificado sob Diocleciano e cedeu inicialmente à perseguição ao oferecer incenso aos ídolos.
*Jesus Cristo, que deu aos Pontífices romanos a infalibilidade dogmática, não os tornou impecáveis.* Baroulus.
Marcelino, romano d e origem, era filho de Projectus. Ocupou a cátedra por oito anos, onze meses e três dias, desde a véspera das calendas de julho (30 de junho), sob o sexto consulado de Dio cleciano e o de Constâncio II (295), até o nono do mesmo Diocleciano e o oitavo de Maximiano (304); época em que a perseguição foi tão grande que, em um mês, dezessete mil cristãos de todas as idades e sexos foram degolados nas diversas províncias. Marcelino foi arrastado ao altar dos falsos deuses para ali sacrificar e oferecer incenso. Ele o fez; mas, alguns dias depois, tocado pelo arrependimento, apareceu novamente diante de Diocleciano, confessou corajosamente a fé e teve a cabeça cortada junto com Cláudio, Cirino e Antonino. Enquanto o conduziam ao suplício, o bem-aventurado Marcelino conjurou o sacerdote Marcelo a não ceder às instâncias do imperador. Por ordem de Diocleciano, os corpos dos santos mártires permaneceram trinta e seis dias sem sepultura, no meio do fórum, para assustar os cristãos com esse espetáculo lúgubre. Finalmente, no dia 7 das calendas de maio (26 de abril de 304), o sacerdote Marcelo veio durante a noite, com os outros sacerdotes e os d iáco nos de Roma, recolher essas preciosas relíquias. Elas foram depositadas ao som de hinos na catacumba de Prisci la, na Via Salária, no *cubiculum* que o Pontífice, após sua penitência, havia designado ele mesmo para o local de sua sepultura, ao lado da cripta onde repousava o corpo de São Crescente. Marcelino, em três ordenações, no mês de dezembro, havia imposto as mãos sobre quatro sacerdotes, dois diáconos e cinco bispos destinados a diversas igrejas. Após ele, a sé permaneceu vacante por dois meses.
A Grande Perseguição
O texto descreve a intensidade da perseguição sob a Tetrarquia, visando destruir a Igreja em favor do paganismo decadente.
Acrescentemos algumas palavras a este curto relato da Crônica dos Papas, reproduzido pelo Breviário Romano: A Igreja nunca teve tanto a sofrer como nesta época terrível. O edifício da idolatria, arruinado pouco a pouco pelos cristãos e destruído em algumas de suas partes, estava pronto para desmoronar sobre seus fundamentos; os altares profanos careciam de flores, os hierofantes, de vítimas, os arúspices não encontravam mais nas entranhas os sinais do futuro, os oráculos tornaram-se mudos, os magos, impotentes. Em tal estado de coisas, parecia que todos os deuses das trevas tentavam seus últimos esforços contra o Deus da luz. Diocleciano, Maximiano, Galério e Maximino foram sucessivamente os quatro chefes desta empresa infernal. Galério, o mais furioso de todos, arrancara de Diocleciano a sentença fatal que ordenava esta perseguição atroz, universal, sem trégua, sem piedade. As igrejas foram derrubadas em quase todas as províncias; os homens, as mulheres, os anciãos, as crianças, as virgens, foram entregues aos carrascos; o céu povoou-se de mártires, e a terra, à vista de tal coragem, estava abrasada de ternura pelo catolicismo. Queria-se destruir a religião de Jesus Cristo, e toda essa fúria servia apenas para elevar o trono da fé sobre os escombros do paganismo.
Os Estados submetidos a Roma, regados pelo sangue dos perseguidos, tornaram-se ainda mais fecundos em ramos cristãos. Os tormentos dilaceraram os corpos dos mártires; mas suas almas, abraçando firmemente a fé, permaneceram invulneráveis e invencíveis. Houve, contudo, um grande número de fiéis que se deixaram vencer pelas ameaças e pelas promessas dos pagãos.
A armadilha do sacerdote Urbano
O sacerdote pagão Urbano utiliza um sofisma sobre a oferta dos magos para convencer Marcelino a queimar incenso diante do imperador.
Ora, Marcelino era bispo de Roma: Urbano, o pontífice pagão do Capitólio, veio encontrá-lo. A discussão começou entre eles sobre a questão de saber se era um grande crime queimar incenso em honra aos deuses. O vosso Cristo, disse Urbano, aquele que pretendeis ser o filho da Virgem Maria, não recebeu ele em seu berço o ouro, o incenso e a mirra que lhe apresentavam os magos?
Esses magos acreditavam honrar assim aquele de quem fizestes o vosso Deus e de quem pregais a ressurreição. O fato de queimar incenso é, portanto, mesmo segundo a vossa própria crença, uma homenagem legítima prestada à divindade. — O bispo Marcelino respondeu-lhe: Os magos não ofereciam o seu incenso a um ídolo vão. Ao depositá-lo aos pés de Jesus Cristo, manifestavam claramente que o reconheciam como o Deus único e verdadeiro. — Quereis, retomou Urbano, vir um destes dias aos palácios de Diocleciano e Maximiano, nossos invencíveis e clementíssimos imperadores? Na presença deles, responderei a todas as vossas objeções sobre este ponto. — Marcelino consentiu. No dia fixado, que era o da festa pagã de Vulcano, o pontífice do Capitólio disse ao bispo: Redijamos cada um de nosso lado as nossas razões por escrito, e nós as entregaremos aos imperadores. — Eles o fizeram, e, quando foram admitidos à audiência dos sacratíssimos príncipes, Marcelino, o bispo de Roma, fiel à sua missão, e confessando generosamente Cristo com intrepidez: Por que, dizia ele a Diocleciano, semear o universo de luto e de carnificina, a propósito do culto supersticioso dos ídolos? Por que forçar todos os homens, sob pena de morte, a queimar incenso diante de estátuas mudas? — Urbano interrompeu-o dizendo: Dirigi-vos a mim,
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eu estou pronto para vos confundir. Não é verdade que, sob este termo injurioso de vãos ídolos, compreendeis o deus Júpiter e o invencível Hércules eles mesmos? Não é assim que blasfemais a majestade de Júpiter, que não é outro senão o céu unido à terra e aos mares em sua eterna aliança com Saturno? Sois pontífice como eu, por que então não ofereceis, assim como eu, incenso à majestade divina? — Diocleciano tomou a palavra: Não leveis este homem ao limite, disse ele a Urbano. Nada prova ain da que ele queira se colocar em rebelião contra o meu poder e contra a majestade dos deuses imortais. — Ora, Diocleciano falava assim, porque Romano e Alexandre, dois de seus confidentes, tinham-lhe dito: Se conseguirdes pela doçura ganhar o espírito de Marcelino, toda a população de Roma obedecerá aos vossos editos e consentirá em sacrificar aos deuses. — Dirigindo-se então ao bispo, Diocleciano disse-lhe: Reconheço a tua sabedoria e a tua prudência. Tu estás talvez destinado a transformar em uma amizade fiel o ódio que eu nutria até aqui pelo nome cristão. Vem, e que o povo seja testemunha da nossa reconciliação. — O imperador dirigiu-se imediatamente ao templo de Vesta e de Ísis; fez entrar o bispo, que estava acompanhado de três sacerdotes, Urbano, Castório, Juvenal e de dois diáconos, Caio e Inocêncio: estes não quiseram transpor o limiar do edifício idolátrico. Deixaram imediatamente o bispo, e consequentemente não viram nada do que se passou depois no templo. Correram ao presbitério, reunido no Vaticano, perto do antigo palácio de Nero, e contaram o fato. A esta notícia, uma multidão de cristãos, entre outros oitenta e quatro testemunhas, correram ao templo; viram Marcelino jogar o incenso sobre o tripé e receber as felicitações do imperador. Ora, estas testemunhas, após terem depositado a soma de dinheiro exigida pela lei de todo acusador, afirmaram ter visto Marcelino oferecer incenso.
O Concílio de Sinuesa
Reunido na Campânia, o concílio recusa-se a julgar o Papa, afirmando que a primeira sé não é julgada por ninguém, levando Marcelino a condenar-se a si mesmo.
Um sínodo foi realizado em Sinuesa, na Campânia, na cripta de Cleópatra; penetrado de dor ao pensar na sua falta, Marcelino apresenta-se ali coberto por um cilício. Um grande número de testemunhas foi ouvido: a cada depoimento afirmativo, os bispos conjuravam-nos a pensar no alcance das suas palavras e acrescentavam: Vós ouvis, Pontífice, julgai agora, pois não podeis ser absolvido nem condenado senão por vós mesmo. Marcelino presidia à frente dos bispos, pois era tido por inocente enquanto não se condenasse a si mesmo. Ele tomou então a palavra e disse com voz distinta: Não sacrifiquei aos deuses; apenas deixei cair alguns grãos de incenso sobre o tripé. Os bispos, levantando-se então, disseram às testemunhas: Não precisamos mais das vossas atestações após aquela que acaba de sair da boca do Pontífice. Subscreveram, portanto, a ata da sessão, e o bispo Quirino disse a Marcelino: Pontífice universal, feristes todos os membros da Igreja . Após dezoito an os de um sacerdócio irrepreensível, cedestes à malícia de Satanás. Na sessão do dia seguinte, o bispo Ciriaco disse a Marcelino: Julgai finalmente a vossa própria causa. Aguardamos a vossa sentença pontifícia. O Papa, prostrando-se então com a fronte no pó, exclamou com uma voz entrecortada por soluços: Pequei diante de Deus e diante de vós; não sou mais digno da dignidade sacerdotal; deixei-me seduzir pelas promessas capciosas do imperador! O sacerdote Helcíades disse: Ele é justamente condenado pela sua própria sentença, é ele mesmo quem pronunciou o anátema que o atinge, pois ninguém tem o direito de condenar o Pontífice. A primeira sé não é julgada por ninguém! — Quando subscreveram a ata desta sessão, Marcelino, o primeiro de todos, assinou com a sua mão, subscrevendo assim a sua própria condenação.
Martírio e atributos
Após sua penitência, Marcelino enfrenta Diocleciano e morre decapitado; ele é representado com um chicote e uma espada.
Como São Pedro, ao bater no peito, ele também havia obtido de Deus o perdão supremo. Retornando a Roma, foi encontrar o imperador e repreendeu-o corajosamente por tê-lo arrastado, contra a sua vontade, a um ato tão enorme de impiedade. Como única resposta, o imperador mandou decapitá-lo.
A Legenda Áurea acrescenta que, para punir a si mesmo, ele abdicou, e que foi reeleito após este ato de profunda humildade.
Atribui-se a ele como atributo o chicote, símbolo da censura pela qual foi atingido, e a espada, instrumento de seu suplício.
Fontes e controvérsias
O autor examina as fontes históricas e os debates entre estudiosos sobre a autenticidade da queda de Marcelino e das atas do concílio.
Sem falar do *Liber Pontificalis*, tomamos este relato: 1º do Breviário Romano; 2º das Atas do concílio de Sinuesa, que se encontram no tomo VI da *Patrologia Latina* e que, segundo o sábio Padre Labbe (coll. dos Concílios, t. II), são um dos monumentos mais veneráveis da antiguidade, cuja veracidade se impõe ao espírito por uma simples leitura; que foram unanimemente aceitas por todas as igrejas e inseridas nos mais antigos martirológios, e que os esforços dos eruditos modernos não são suficientes para fazê-las considerar falsas. Gedescard, Tillemont, Bossuet e os alemães de nossos dias, herdeiros de doutrinas mais ou menos abandonadas entre nós, rejeitam até mesmo o fato da queda de São Marcelino, para se livrarem de uma só vez das Atas desse concílio, cuja doutrina os incomoda. — Ver além disso Baronius no ano 303, n. 100-108, que, após ter contestado a autenticidade das Atas desse concílio em sua primeira edição, julgou dever modificar sua opinião na segunda; a carta do papa Nicolau, o Grande, ao imperador Miguel, cuja afirmação absoluta nos parece dever resolver a questão (*Pat. lat.*, t. cxx), pois se Santo Agostinho nega de maneira igualmente absoluta, ele o faz por falta de informações: ele que ignorava, na véspera de ser feito bispo, que o concílio de Niceia tivesse formulado cânones, bem poderia ignorar a existência do concílio de Sinuesa, do qual os donatistas faziam, muito erroneamente, uma arma contra a igreja (livro de Agostinho contra Petiliano e carta 110); os primeiros Bolandistas, que afirmavam a queda, enquanto Papabrock a negava; Sommer que a admitia, e Noël Alexandre que a rejeitava; enfim, o interessante capítulo dedicado pelo abade Durras a esta questão em sua *Histoire de l'Église*, t. VIII.
Iconografia
Sinais e atributos
Entidades
Rede do relato
Os nomes, lugares e conceitos mais presentes na ficha, ponderados por sua centralidade no texto.
Perguntas frequentes sobre São Marcelino, Papa e Mártir
Quem foi São Marcelino, Papa e Mártir?
Papa romano sob o reinado de Diocleciano, Marcelino fraquejou inicialmente diante da perseguição ao oferecer incenso aos ídolos. Tomado pelo remorso, confessou sua culpa durante o sínodo de Sinuesse antes de proclamar corajosamente sua fé diante do imperador. Morreu decapitado em 304, redimindo sua queda pelo martírio.
Como reconhecer São Marcelino, Papa e Mártir na arte cristã?
Na iconografia, São Marcelino, Papa e Mártir é reconhecível por: chicote e gládio.
Como São Marcelino, Papa e Mártir morreu?
São Marcelino, Papa e Mártir sofreu o martírio pela fé cristã (4.º século).
Quais santos foram contemporâneos de São Marcelino, Papa e Mártir?
Entre seus contemporâneos figuram: São Brás, Santo Hilário de Poitiers, São Basílio Magno (Arcebispo de Cesareia) e São Baudílio.
Quem são os familiares de São Marcelino, Papa e Mártir?
Familiares de São Marcelino, Papa e Mártir: Projectus (pai).
Anexos & entidades relacionadas
Dados estruturados para exploração: eventos, milagres, citações, lugares, atributos, padroados e entidades importantes citadas no texto.
Eventos marcantes
- Eleição ao pontificado em 295
- Queda e sacrifício aos ídolos sob a pressão de Diocleciano
- Arrependimento durante o sínodo de Sinsuessa, na Campânia
- Confissão pública da fé diante de Diocleciano
- Decapitação em Roma
Citações
-
Pequei diante de Deus e diante de vós; não sou mais digno da dignidade sacerdotal.
Atos do Concílio de Sinsuessa -
A primeira sé não é julgada por ninguém!
Helciade, durante o sínodo de Sinuesse